Archive for Junho, 2016

Maria Alzira Seixo – Segurar a Vida
Junho 30, 2016

Maria Alzira Seixo

” Nasci com o ciclone de 1941. Meus pais viviam na Moita e a minha mãe, grávida de cinco meses, ia visitar os meus avós ao Barreiro e no caminho foi apanhada pelo vendaval, chegou ao destino em estado de choque, e a parteira chamada à pressa declarou que o bebé tinha dado voltas e estava em posição de saída. Com o prognóstico péssimo, ficou de cama a ser se aguentava o bebé, mas daí a dois meses ele veio cá para fora. Era eu. Portanto nasci no Barreiro, e aos cinco dias levaram-me para casa, na Moita do Ribatejo, que aliás fica na Estremadura. (…)  onde vivi 15 anos com um quintal enorme, pomar e capoeiras, pombal, forno de cozer pão (minha mãe “deitava” galinhas e eu aprendi a “tirar” os pintainhos). (…)

E tenho duas terras natais!

Do Barreiro guardo a alma ribeirinha, a mobilidade de barcos e comboios partindo e chegando, e o drama social que em criança vislumbrei numa carga da GNR a cavalo sobre operários da Cuf.

Da Moita retenho o tempo parado, tardes sem fim ritmadas pela festa a N.ª Sr.ª da Boa Viagem (a imagem de santa mais linda que há) onde a GNR, também a cavalo, entra agora a abrir a procissão de 23 andores; e a algazarra dos toiros, em corridas e largadas a ferver no sangue; e a respiração dos campos, quando a dada altura vivíamos fora da vila, à beira do pinhal, e os dias se mediam pelo tilintar dos guizos das ovelhas recolhendo ao redil, e para ir à escola, tinha eu 8 anos, andava 6 Kms a pé, à chuva e ao sol, com uma colega de 12.

Aprendi a ler com o Hino de Amor, na Cartilha Maternal. Lá em casa havia A Princesinha, o Tom Edison, o Pequeno Génio e Mulherzinhas, mas emprestaram-me John, Chauffeur Russo que me desvaneceu. Tinha tempo a mais e livros a menos, mas na biblioteca da Sociedade Filarmónica Capricho Moitense devorei Stefan Zweig e Camilo Castelo Branco.

Minha mãe dizia que a leitura punha ideias parvas na cabeça das raparigas e ensinava-me piano (tinha o Conservatório e tocava muito bem), e eu passava tardes a entoar solfejo e a tocar escalas, de moeda nas costas da mão, a moeda caía e eu chateava-me (…)  só toco se estou sozinha; mas fazer escalas repousa, apura-me o raciocínio. (…)”

SEIXO, Maria Alzira, “autobiografia”, in JL, 24 de Outubro – 6 Novembro 2007

(continua)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, poetisa, professora catedrática (jubilada).

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Rui Vieira – Dias Escritos 
Junho 30, 2016

Rui Vieira

”  Segunda-feira, 26 de setembro

(…)

Todos dormem. Salve trevas da noite.

Hoje temos um trabalho diferente, um trabalho que te vais desconcertar, vou introduzir-te no teu próprio labirinto, na realidade só hoje vais existir, não sei se percebeste, és uma ilusão de ti mesmo, não existes, só hoje te vou escrever, vais passar do conjunto d garatujas do moleskine para um papel em branco e depois para o piano das teclas.

Depois vou riscar-te, reescrever-te e chamar-te Dias Escritos.

Vives uma semana, num dia, numas horas. A seguir vais desaparecer, e reaparecer de aqui a uns dias impresso na ilusão de uma folha de jornal.”

 

In JL, 5 a 18 de outubro de 2011

António Rui da Silva Vieira (Porto, 29/11/1966)
Romancista, contista, autor de literatura infantil, engenheiro mecánico e MBA em Gestão Internacional.

Gonçalo M. Tavares – O Sol
Junho 30, 2016

Gonçalo M. Tavares

” Na infância o sol era um companheiro mais alto,

Que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,

Guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quante.

Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,

Aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria

Que os meninos agarravam com os dedos e cuja

Intensidade podiam por vontade própria regular.

Por exemplo: quando a luz excessiva

Os dedos protegiam os olhos. Outras vezes

O corpo parecia a conclusão

Natural, instintiva, do calor que vinha de cima:

Recebíamos o sol como o ponto final recebe

Uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos

(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio

Me fui distraindo?”

 

In JL, 9 – 22 Junho 2004

 

Gonçalo M. Tavares (Luanda, Agosto de 1970)

Poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, vencedor de vários prémios literários, professor universitário.

Al Berto – O Regresso
Junho 30, 2016

Al Berto

” Um editor com a existência comercial metido dentro de malas: era como subsistia Alberto R. Tidwell Tavares, “doublé” de poeta (Al Berto).

Ele garantiu entretanto ao “Bookcionário” que a “casa”, Deus ajudando, dia a dia melhora. (…)”

In Jornal, “Bookcionário”, 11/4/1980

 

Em 1989, numa entrevista à Ler, Al Berto diz:

” Estou em Sines e sinto-me bem. E estou lá, também, porque não tenho outro sítio nenhum para ir.

Cheguei a um ponto da minha vida que não há sítio no mundo para onde se possa ir viver e ser feliz.

Sines é um lugar onde tenho conforto, onde me protejo, onde ninguém me aborrece, onde posso ter uma vida diferente, sem ser autor…

Sou pelo profissionalismo do escritor e da edição… mas preciso de recarregar baterias, de me proteger do mundo, também. E, lá, nada me interrompe a vida.”

 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

 

Agripina Costa Marques – O Princípio…
Junho 30, 2016

Agripina Costa Marques

O princípio onde tudo se forma
é o interior recôndito,
centro gerador, fonte ou matriz
virtual da integridade,
permeável à onda vibratória
que avassala. Dinamizante foco:
a chama reconverte em inteiro
espaço; retorno em nascimento.

MARQUES, Agripina Costa, Ciclos, Fragmentos, Idades 

Agripina Costa Marques (n. 1929)
Poetisa, viúva de António Ramos Rosa.

António Ramos Rosa – O Encanto da Palavra Estrela
Junho 30, 2016

António Ramos Rosa

Porquê o encanto da palavra estrela?

Será que a palavra cintila como o astro

no céu?

Ela é uma forma viva que vemos como se

fosse azul

e designa imediatamente a longínqua estreia no céu (…)

 

ROSA, António Ramos, A Imobilidade Fulminante

 

António Ramos Rosa (Faro, 17/10/1924 – Lisboa, 23/09/2013)
Poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e desenhador.
Marido da poetisa Agripina Costa Marques.

 

Grupos Naturais – Chegar a Acordo / Chegar à Fala / Chegar às Boas / Cheirar a Chamusco (ou a Esturro) / Chover a Cântaros / Colher os Louros / Colher Tempestades 
Junho 26, 2016

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Chegar a acordo – entenderem-se mutuamente.

Ex.: Depois das conversações, eles chegaram a acordo.

 

Chegar à fala – nunca falar sobre.

Ex.: Eles nunca chegaram à fala sobre o namoro.

 

Chegar às boas – concordar; aceitar as condições.

Ex.: Os automobilistas acabaram por chegar às boas na questão do acidente

 

Cheirar a chamusco (ou a esturro) – inspirar receio, engano.

Ex.: Não te metas nesse negócio! Isso cheira a chamusco.

 

Chover a cântaros – com abundância.

Ex.: Quando partimos de Lisboa, chovia a cântaros.

 

Colher os louros – gozar os benefícios, as honras, a fama.

Ex.: Espero colher os louros da vitória a tempo de saboreá-los.

 

Colher tempestades – sofrer os consequências dos seus actos.

Ex.: Quem semeia ventos, colhe tempestades.

(continua)

 

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – José Craveirinha, Um Homem não Chora
Junho 26, 2016

José Craveirinha

Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

José Craveirinha (Lourenço Marques, 28/5/1922 – Maputo, 6/2/2003)
O maior poeta de Moçambique,  galardoado com o Prémio Camões em 1991.

José Luís Peixoto – Quando Eu Era Pequeno…
Junho 26, 2016

José Luís Peixoto

” (…) Quando eu era pequeno, a casa era antiga. Era a casa de muitas pessoas que lá tinham vivido antes de nós, mas era nossa, porque essas pessoas eram gente que tinha gostado de nós. Porque os pais do meu pai tinham gostado dele  e ele gostava de mim.  (…)

Quando eu era pequeno, brincava com carrinhos à volta da mesa da cozinha. Fazia corridas e, embora fosse eu contra mim, os carrinhos que eu queria que ganhassem ganhavam sempre. (…)

Quando eu era pequeno, a minha mãe gostava muito de mim. Na sua voz de mãe, chamava-me por um nome d menino e apertava-me muito contra o peito. A minha mãe queria que eu dormisse a sesta e contava-me histórias que sabia de cor. A minha mãe era minha amiga e contava-me muitas histórias. A minha mãe era muito nova e bonita. Eu podia fazer as piores maldades, que a minha mãe, depois de se zangar um pouco, depois de me ralhar um pouco, continuava sempre a preocupar-se comigo e a dizer-me tens de comer tudo para seres grande. Quando íamos à cidade, eu andava de mão dada com a minha mãe  nas lojas de roupas e depois, a minha mãe comprava-me um carrinho ou uma corneta de plástico. Eu gostava muito de a ver feliz e, às vezes, ia ao jardim e arrancava uma flor para lhe dar.

Quando eu era pequeno, fazia coisas e a minha mãe ria-se. No Inverno, íamos para a sala de baixo. Sentava-me no chão a brincar em cima de uma manta de retalhos e a minha mãe, sentada à lareira, contava-me histórias da família dela e coisas verdadeiras como se eu fosse grande. (…)

Quando eu era pequeno, soube-o mais tarde, a minha mãe não tinha ninguém com quem conversar. (…)

Quando eu era pequeno, era feliz e, só mais tarde percebi, a minha mãe sofria muito. Nunca ninguém me contou nada. Nunca ninguém falou nisso. Nunca ninguém me contou nada. Só depois do dia em que fiz dezoito anos (…) reconstruí a minha memória, pensei e percebi que a minha mãe sofria muito. Quando a minha mãe chorava. Quando a minha mãe me abraçava. A minha mãe, a pessoa de quem eu gostava com a ingenuidade e a beleza toda do amor das crianças, a minha mãe sofria muito. (…)”

PEIXOTO, José Luís, Uma Casa na Escuridão

José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sor, Setembro de 1974)
Poeta, romancista, dramaturgo, colaborador de diversas publicações nacionais e estrangeiras, licenciado em LLM, variante de Inglês Alemão.

David Pinto Correia – À Memória de Jacinto do Prado Coelho
Junho 25, 2016

David Pinto Correia

 

Hoje desisto. Tua mansa paragem

neste círculo de névoa

que me prende às portas da tarde

sossega meu pesadelo

de homem já cansado e poluído.

 

Não divago para ti o que fomos

Junto da rubra ameixoeira.

As palavras são o vazio do teu olhar

quebrado doce esvoaçar

de grito ou lamento

neste estilhaçar de recusas pelo meu peito.

 

Desisto. Nem tentes se quer invadir

Este meu vínculo de águas que roubei

Às tuas preces.

Hoje a ilha e as marés sossegam

Nossos braços corroídos nossos olhares

Vazios.

 

CORREIA, David Pinto, Este Branco Silêncio

 

David Pinto Correia (Funchal, 1939)
Professor catedrático na FLUL, doutorado em Literatura Portuguesa, autor de várias obras, dirigente de diversas publicações e colectâneas, detentor de cargos na cultura portuguesa – um professor para recordar pela vida fora.