Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Pepetela, A Casa onde Nasci na “Cidade Mulata”

Pepetela

“Muitos a cantaram. Poetas, cronistas, romancistas. “Cidade das acácias rubras” ou “cidade mulata”, assim era conhecida quando nasci.

Muitos continuam hoje a cantar Benguela, a modorrenta povoação que nasceu por ilusão de umas inexistentes minas de cobre, situada pior sítio da região, rodeada de pântanos onde o mosquito imperava, matando pela malária no primeiro ano metade dos europeus que a ela se acoitavam. (…)

Os quintais deram celebridade à povoação e moldaram a sua cultura, grandes quintalões de altos muros de adobe, onde ainda encontrei correntes de ferro e argolas encastoadas.

Nos quintalões  ficavam os escravos e os mais rebeldes eram presos aos muros por essas correntes.

No quintal da casa onde nasci já não havia tais artefactos do período mais triste da cidade, tornada no maior porto exportador de escravos para as Américas.

A casa era de adobe e hoje se vê bem a sua estrutura, pois uma parte do tecto ruiu e o interior das paredes está à mostra.

A parte mais importante era a varanda de trás, que dava para o quintal, separada dele por cortinas de missangas entremeadas de tubos de caniço amarelo, cortinas cantando com o vento. Música da primeira infância.

A vida familiar se processava na varanda, a parte mais fresca  e com vista para as árvores de fruta, goiabeiras, sape-sapes, anonas e pitangueiras.

Colado à casa, havia o Jornal de Benguela com a sua barulheira gráfica e o cheiro a tinta que até hoje recordo. Profecia redundante, escritor nascer ao lado de um jornal?

Para além das mulheres bonitas, lendárias em Angola, que havia mais para criar tanto encantamento nos nossos visitantes? Feitiço. O contraste do amarelo dos morros circundantes com o azul do mar? Não chega como explicação. As ruas direitas, planas, em tecido escocês? Monótonas demais. É feitiço, só pode. O mesmo que vinha nas estórias de embalar que me contavam, de cazumbis e omakisi, os monstros comedores de gente. (…)”

 

In JL, “Autobiografia”, 26 Outubro – 8 Novembro 2005

 

Pepetela (Benguela, 29/10/1941)
Pseudónimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos .
Escritor, guerrilheiro do MPLA, político, governante, professor universitário, licenciado em Sociologia.

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