Matilde Rosa Araújo – Um Poema Chamado Maria

Matilde Rosa Araújo

“Se eu vos disser que Maria era para mim um poema eu não exagero. Um poema muito belo. Todas as crianças, aliás, são poemas para nós, os adultos. Poemas que nos dizem que a Vida tem Sol, Amor, Alegria, flores , água que corre nos rios, que se levanta nos mares em ondas vigorosas. E neve, e chuva, aqueles dias em que, por detrás dos vidros, parece vermos o tempo correr.

Maria era tudo para mim. Os seus olhos muito castanhos, muito brilhantes, quando me olhavam levavam-me para muito longe. Um país que vocês talvez não conheçam porque estão dentro dela ainda: o País da Infância.

E, então, íamos num barco à vela. Ou íamos pelo ar: num avião brilhando ao sol, nas asas finíssimas do vento, ou até sozinhas como se nós próprias tivéssemos asas.

E víamos terras maravilhosas.

– Queres uma flor?

– Quero, Maria!

A mãozinha, muito gorda e com pequeninas covas, de Maria, estendia-me uma flor. Na sua mãozinha a flor era sol, a água de um repuxo que se erguia para o ar e cantava.

– Obrigada, Maria!

E Maria ria, feliz por me ter dado uma flor. Eu tão feliz por a ter recebido. Maria começava, pequenina, a prender a alegria de dar. (…)”

(continua)

 

ARAÚJO, Matilde Rosa, O Sol e o Menino dos Pés Frios

 

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 6 /7/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

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