Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (continuação)

Maria Assunção Vilhena

“(…) No porto de pesca * barcos multicolores baloiçavam levemente ao sabor da brisa.

Aquele pedaço do Atlântico tomava, a certas horas do dia, um tal brilho que parecia uma placa de metal bem polido. Foi, precisamente, num desses momento que chegámos.

Alguém do grupo dos moços pequenos, ao ver os barcos sobre  aquela superfície brilhante, perguntou: ” O que é aquilo que está em cima daquela lata?” Eu tinha acabado de ver, e tinha tido precisamente a mesma ilusão, mas não disse nada; fiquei a olhar e a pensar o que seria, até que um barqueiro, remando lentamente, deixou atrás do seu batel um rasto de espuma branca e rendilhada que me levou à realidade.

Depois de tudo arrumado, era necessário habituamo-nos a viver em casa** de estranhos, com a desvantagem de ser casa emprestada, por pessoas com quem os meus pais faziam uma certa cerimónia. Como era a primeira vez que tal sucedia, foi difícil cumprir todas as regras que nos impunham.

O primeiro dia é que foi o pior: imagine-se um bando de moços habituados à liberdade da vida do monte, numa casa com uma escada de madeira, a que não estavam habituados, que subiam e desciam como se de um brinquedo se tratasse!

Coitada da minha mãe! Implorava-nos, por amor de Deus, que não fizéssemos barulho, que não incomodássemos a senhora que, apesar de surda, percebia, pelo movimento e agitação dos recém-chegados que alguma coisa não estava a correr bem.

Fomos então obrigados a brincar na rua quase todo o dia, só indo a casa para comer e dormir… (…)”

(continua)

* A lota tinha saído da praia de banhos, provavelmente em 1925, segundo notícias do jornal Folha de Sines, n.º 24, de Setembro de 1925. ” Não basta apenas que se tenha acabado com a lota onde se armam as barracas, Necessário se torna que se olhe pela limpeza da praia”.

 

** Ainda existe, ao lado da casa que tem uma lápide de mármore com a seguinte inscrição:

AQUI NASCEU O ÉPICO NAVEGADOR

VASCO DA GAMA

HONRA À SUA MEMÓRIA

8 DE MAIO DE 1898

Depois de irmos à escola e termos lido a lápide, ficámos muito vaidosos por termos morado ao lado da casa onde nasceu Vasco da Gama. Mas… passados anos, ficámos a saber que era engano. O épico navegador não tinha nascido ali: “Vasco da Gama nasceu na vila de Sines, em 1469, provavelmente no segundo andar da torre de menagem do castelo de Sines, sendo filho de Estevão da Gama e de Dona Isabel Sodré”. ” O pai desempenhava a função de alcaide-mor de Sines e comendador do Cercal”.  – Arnaldo Soledade, Sines, Terra de Vasco da Gama, p. 75.

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

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