Gonçalo M. Tavares – O Sol

Gonçalo M. Tavares

” Na infância o sol era um companheiro mais alto,

Que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,

Guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quante.

Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,

Aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria

Que os meninos agarravam com os dedos e cuja

Intensidade podiam por vontade própria regular.

Por exemplo: quando a luz excessiva

Os dedos protegiam os olhos. Outras vezes

O corpo parecia a conclusão

Natural, instintiva, do calor que vinha de cima:

Recebíamos o sol como o ponto final recebe

Uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos

(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio

Me fui distraindo?”

 

In JL, 9 – 22 Junho 2004

 

Gonçalo M. Tavares (Luanda, Agosto de 1970)

Poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, vencedor de vários prémios literários, professor universitário.

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