Maria Alzira Seixo – Segurar a Vida

Maria Alzira Seixo

” Nasci com o ciclone de 1941. Meus pais viviam na Moita e a minha mãe, grávida de cinco meses, ia visitar os meus avós ao Barreiro e no caminho foi apanhada pelo vendaval, chegou ao destino em estado de choque, e a parteira chamada à pressa declarou que o bebé tinha dado voltas e estava em posição de saída. Com o prognóstico péssimo, ficou de cama a ser se aguentava o bebé, mas daí a dois meses ele veio cá para fora. Era eu. Portanto nasci no Barreiro, e aos cinco dias levaram-me para casa, na Moita do Ribatejo, que aliás fica na Estremadura. (…)  onde vivi 15 anos com um quintal enorme, pomar e capoeiras, pombal, forno de cozer pão (minha mãe “deitava” galinhas e eu aprendi a “tirar” os pintainhos). (…)

E tenho duas terras natais!

Do Barreiro guardo a alma ribeirinha, a mobilidade de barcos e comboios partindo e chegando, e o drama social que em criança vislumbrei numa carga da GNR a cavalo sobre operários da Cuf.

Da Moita retenho o tempo parado, tardes sem fim ritmadas pela festa a N.ª Sr.ª da Boa Viagem (a imagem de santa mais linda que há) onde a GNR, também a cavalo, entra agora a abrir a procissão de 23 andores; e a algazarra dos toiros, em corridas e largadas a ferver no sangue; e a respiração dos campos, quando a dada altura vivíamos fora da vila, à beira do pinhal, e os dias se mediam pelo tilintar dos guizos das ovelhas recolhendo ao redil, e para ir à escola, tinha eu 8 anos, andava 6 Kms a pé, à chuva e ao sol, com uma colega de 12.

Aprendi a ler com o Hino de Amor, na Cartilha Maternal. Lá em casa havia A Princesinha, o Tom Edison, o Pequeno Génio e Mulherzinhas, mas emprestaram-me John, Chauffeur Russo que me desvaneceu. Tinha tempo a mais e livros a menos, mas na biblioteca da Sociedade Filarmónica Capricho Moitense devorei Stefan Zweig e Camilo Castelo Branco.

Minha mãe dizia que a leitura punha ideias parvas na cabeça das raparigas e ensinava-me piano (tinha o Conservatório e tocava muito bem), e eu passava tardes a entoar solfejo e a tocar escalas, de moeda nas costas da mão, a moeda caía e eu chateava-me (…)  só toco se estou sozinha; mas fazer escalas repousa, apura-me o raciocínio. (…)”

SEIXO, Maria Alzira, “autobiografia”, in JL, 24 de Outubro – 6 Novembro 2007

(continua)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, poetisa, professora catedrática (jubilada).

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: