Archive for Julho, 2016

Manuel Teixeira-Gomes – O Poder da Grécia
Julho 29, 2016

Manuel Teixeira-Gomes

“Eu não creio que haja na História exemplo igual ao da Grécia, que desapareceu em plena mocidade. Foi uma nação que morreu sem ter envelhecido. Virá daí a perpétua e irresistível atracção que ela exerce, através das idades? Nação adolescente, que revelou e fixou o supremo cânone de beleza plástica e intelectual, que tudo soube só pelo gosto de saber, foi a maior lição de dignidade física e espiritual que a humanidade registou”

TEIXEIRA-GOMES, Manuel, Agosto Azul

Manuel Teixeira-Gomes (Portimão, 27/5/1860 – Bougie, Argélia, 18/10/1941)
Co-fundador do jornal de teatro Gil Vicente, 1881, colaborador de outras publicações, escritor, sétimo Presidente da Primeira República, de 1/10/1923 a 11/12/1925, tendo renunciado ao cargo, para se dedicar à literatura.

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Maria Amália Vaz de Carvalho – O Poder da Mulher
Julho 29, 2016

Maria Amália Vaz de Carvalho

“A mulher é um poder, é preciso aproveitá-la na obra comum da civilização”

Maria Amália Vaz de Carvalho (Lisboa, 2/2/1847 – Lisboa, 24/3/1921)
Poetisa, contista, ensaísta, crítica literária, biografista, colaboradora em várias publicações, foi a primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa, criou na sua casa o primeiro salão de literatura de Lisboa, frequentado por: Camilo, Eça, Ramalho e Junqueiro, entre outros, esposa do poeta Gonçalves Crespo, com quem escreveu: Contos para os Nossos Filhos.

Maria Gabriela Llansol – Passar a Voz ao Papel
Julho 29, 2016

Maria Gabriela Llansol

Passar a voz ao papel,
Ou do ladrar à rosácea,
Trova, é escrever. Estava
Ele, atônito, não vislumbrando
Como ia tanta palavra
Caber na rosácea.
Era óbvio que uma delas
Serviria de estaca,
E as restantes de rosas
No caule ainda por vir.
Quando a frase rosna,
Não há outro remédio.

Maria Gabriela Llansol (Lisboa, 24/11/1931 – Sintra, 3/3/2008)
Contista, novelista, romancista, poetisa, autora de diários, tradutora, licenciada em Direito e Ciências Pedagógicas.

António Ferreira – O Meu Desejo
Julho 29, 2016

António Ferreira

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.

António Ferreira (Lisboa, 1528 – Lisboa, 29/11/1569)
Poeta, dramtaurgo e humanista, considerado o Horácio português, doutorado em Cânones.

Cristovam Pavia – Marinha
Julho 29, 2016

Cristovam Pavia

Um bando de gaivotas
revoluteando,
insistindo…
Partindo
e logo voltando,
em voltas e cambalhotas,
sobre o mar…

A vela branca, a vibrar,
que se não sabe onde vai,
desaparece
e parece

que já não há-de voltar…
Mas de repente aparece
e vai do fundo, do mar
para o céu…

E um menino que correu
e riu
às transparências desse mar sem fim,
quando me viu,
levantou a grande aba do chapéu
e, desenhado a branco sobre o céu,
ficou, por muito tempo, a olhar p’ra mim.

 

Cristovam Pavia (Lisboa, 7/10/1933 – Lisboa, 13/10/1968)
Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho – usou outros pseudónimos: Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.
Poeta, membro da revista: O Tempo e o Modo, publicou poemas nas revistas: Távola Redonda e Árvore.
Filho de do poeta Francisco Bugalho, ligado à revista: Presença.
Licenciado em Filologia românica.

 

Grupos Naturais – Conhecer de Ginjeira / Correr à Lambada (ou à Paulada) / Correr a Pontapé / Cortar o Coração / Cortar Relações / Cumprir a Missão
Julho 28, 2016

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Conhecer de ginjeira – c. muito bem.

Ex.: Aquele fulano? Conheço de ginjeira

 

Correr à lambada (ou à paulada) – à tareia ; a golpes de pau.

Ex.: A professora correu os alunos à lambada.

O quinteiro correu os rapazes à paulada.

 

Correr a pontapé – expulsar a bem ou a mal.

Ex.: O patrão ameaçou correr todos a pontapé.

 

Cortar o coração – causar tristeza, compaixão.

Ex.: Aquele filme é de cortar o coração.

 

Cortar relações – desistir de falar.

Ex.: A Elsa e o Rui cortaram relações.

 

Cumprir a missão – executar a tarefa destinada.

Ex.: O Miguel teve dificuldades em cumprir a missão.

 (continuar)

 

Ruy Belo – Morte ao Meio-Dia
Julho 28, 2016

Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo (S. João da Ribeira, Rio Maior, 27/2/1933 – Queluz, 8/8/1978)
Poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor, leitor de Português, licenciado em Direito e Filologia Românica, doutorado em Direito Canónico.

Ana Hatherly – Wer, Wenn Ich Schriee
Julho 28, 2016

Ana Hatherly

Quem, se eu gritar

me concede

a profundeza inversa deste céu

que ao fim da tarde

eu vejo da minha janela

contemplando os anjos

que as nuvens imitam?

 

Alguém me ouve se eu gritar?

 

Oiço vozes

mas são vozes inventadas

porque é inútil perscrutar o silêncio

e por isso vos reinvento

a cada pancada do meu coração

a cada pancada surda

que não repercute

no ímpeto claro do vosso desenho fantástico

no alado lado da vossa impossibilidade

 

Se eu gritar

alguém me ouve

em todas estas coisas?

 

Nenhum anjo

escuta o meu grito

que não penetra a noite

e só encontra o eco de nenhum desejo

 

E lançando de meus braços o desejo

não invejo

admiro

a sufocante beleza deste ocaso

cheio de nuvens velocíssimas

e tudo o que eu sinto

é tão imenso

como este ocaso

dantesco

tiepolesco

wagneriano

que eu contemplo

doente do excessivo amor do que é belo

que me afoga

na sua imensidão aérea

 

E tão fortuitamente criado pelo vento

e pela terra que se inclina

este ocaso laranja sobre azul

esplêndido e Kitsch

é tão impermanente

como vós

nuvens-anjos que me arrebatais

com vossos incêndios imensos e falsos

ilusão de óptica que me fascina e oprime

 

Encostada à minha janela

contemplo a vossa beleza

que a todo o instante

se faz e se desfaz

até o chumbo da sombra avançar

e aos poucos surgir a noite

antiga e idêntica sempre

lançando-me em vossos braços

vazios

cheios só de vozes

inaudíveis

 

Ana Hatherly (Porto, 08/05/1929 – Lisboa, 05/08/2015)
Poetisa, ensaísta, romancista, investigadora, tradutora, artista plástica, professora universitária, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Estudos Hispânicos, diplomada em cinema, foi uma das fundadoras do PEN Clube Português, que presidiu, membro da Direção da Associação Portuguesa de Escritores e fundou as revistas Escuro-Claro e Incidências.

Vitorino Nemésio – Azorean Torpor
Julho 28, 2016

Vitorino Nemésio

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci.  Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais – talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde…

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma [e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

Vitorino Nemésio (Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.

Camilo Pessanha – San Gabriel II
Julho 28, 2016

Camilo Pessanha

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um montão de estrelas.

Outra vez vamos! Côncavas as velas,
Cuja brancura, rútila de dia,
O luar dulcifica. Feéria
Do luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lentescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas…
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.

Camilo Pessanha (Coimbra, 7/8/1867 – Macau, 1/3/1926)
Poeta, licenciado em Direito.