Sebastião da Gama com os Alunos da Escola Industrial e Comercial Veiga Beirão, Lisboa

Sebastião da Gama e os %22Rapazes%22-Alunos

Decorria o ano letivo de 1948/49 e o jovem  poeta Sebastião da Gama, que já publicara: Serra Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida com a colaboração de Miguel Caleiro (1946) e Cabo da Boa Esperança (1947), este no ano em que se licenciara em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a distinta defesa da sua dissertação: Apontamentos sobre a Poesia Social no Século XIX, leciona como professor estagiário na Escola Industrial e Comercial de Lisboa.

Este professor de Português deixou-me o legado da riqueza da sua experiência no seu Diário, obra que intitulei, na primeira vez em que o li quase de um sorvo, como: “Tratado de Amor” – amor ao ensino, amor aos seus “rapazes”,  amor à língua-mãe.

Relata-nos, a propósito dos seus alunos, no inicio do seu Diário:

“Janeiro, 11

Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro desta convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e vem a propósito, ir ensinando. (…)

Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: ” O que eu quero principalmente é que vivam felizes.”

 

“Janeiro, 12

“O que eu quero principalmente é que vivam felizes.”

Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que quis dizer. No sumário, pus assim: “Conversa amena com os rapazes.” E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade que não se limita a não enganar o professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou  rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.

“Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já me esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos.”

Não acabei sem lhes fazer notar que “a aula é nossa”. Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.”

 

Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)
Poeta e professor de Português, colaborador das Revistas: Árvore e Távola Redonda, fundador da Liga para a Protecção da Natureza (1948), licenciado em Filologia Românica.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: