Cora Coralina – Aquela Gente Antiga – II

Cora Coralina

Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
“Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa fácil.”

Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado…
“Essa boba… Chorona… Ninguém nem falou o nome dela…”
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.

Cora Coralina (Cidade de Goiás, 20/08/ 1889 – Goiânia, 10/04/1985)
Pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
Poetisa e contista, foi a primeira mulher a ganhar o prémio Juca Pato (1983).
Começou a escrever aos 14 anos, mas só publicou o primeiro livro aos 75 anos.

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