Maria Alzira Seixo – Segurar a Vida (Continuação)

Maria Alzira Seixo

“Aos 15 anos a vida mudou. Sonhava ser professora, a minha ideia de ensino eram os professores primários, os únicos que tivera, e dois excepcionais: D. Antonieta Vilhena , na 4.ª classe, e o referido prof. Guerreiro, que me levava a exame ao liceu.

Mas o meu pai, homem de negócios sem capital mas de grande cabeça, inquiriu deles se eu teria capacidade para um curso superior  e para ser professora de Liceu. Eles acharam que sim e a família dispôs-se a sacrifícios para eu entrar na Faculdade.

Mas tinha de fazer o 7.º ano e como queria Românicas devia ir para o Pedro Nunes. Os colegas da Moita aterraram-me: vais para o Liceu? é tão difícil! tens de estudar imenso!

E lá fui eu, cheia de medo e de sono, a levantar-me às 5 da manhã para apanhar o comboio que me levava ao barco do Barreiro, que demorava 45 minutos a chegar ao Terreiro do Paço, onde às 7 e 30 tomava o autocarro para o liceu. O pior era se havia nevoeiro: o vapor a abarrotar de operários, perdia-se no Tejo, os poucos estudantes embarcadiços iam perdendo aulas, e só lá pelas 11 chegávamos a Lisboa. (…)

No Pedro Nunes deu-se o grande equívoca da minha vida: atirei-me aos livros para passar o ano e qual não foi o meu espanto ao ver-me no Quadro de Honra com dezassetes e dezoitos. Nunca passara de dozes e trezes, e era agora uma grande aluna. Criara sem querer uma imagem que não coincidia comigo, e nunca mais pude regressar a mim.

Tinha professores de escol. E era durante a campanha do Delgado, eu avisada pela família que nem a palavra “política” devia pronunciar, os da JEC descobrem que eu não era religiosa e caem-me em cima com apostolado, Abelaira dava aulas de Filosofia a que assistíamos com unção, Mário Dionísio fazia conferências nas Belas-Artes sobre pintura contemporânea, eu não podia ir porque o último barco com comboio para a Moita era o das 10 da noite, a minha mãe barafustava que não me deixava dormir fora de casa, e o meu pai, compreensivo: “Vai lá à conferência e volta no barco da meia-noite que eu vou buscar-te ao Barreiro.

Foi um despertar épico para a confusão do mundo! Mantive as notas altas e fui para a Universidade. (…)”

SEIXO, Maria Alzira, “autobiografia”, in JL, 24 de Outubro – 6 Novembro 2007

(continua)

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 29/4/1941)
Ensaísta, crítica literária, poetisa, professora catedrática (jubilada).

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