Vitorino Nemésio – Azorean Torpor

Vitorino Nemésio

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci.  Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais – talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde…

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma [e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

Vitorino Nemésio (Açores, Praia da Vitória, 19/12/1901 – Lisboa, 20/2/1978)
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador de literatura e cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo, comunicador televisivo, professor universitário.

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