Archive for Setembro, 2016

Almeida Garrett – Bela Infanta
Setembro 30, 2016

Almeida Garrett

Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Com o pente d’oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha;
Muito bem que a governava.
– Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada.
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.
-Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada
Dize-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava
– Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.
– Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Em sua morte vingava.
– Ai triste de mim, viúva,
Ai triste de mim, coitada !
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada !…
– Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui ?
– Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.
– Não quero oiro nem prata,
Não vos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui ?
– De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem !
Tomara-os el-rei p’ra si.
– Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui ?
– As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.
– As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui ?
– De três filhas que eu tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.
– As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui.
– Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.
– Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.
– Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo.
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui !
– Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti…
Que é dela a outra metade ?
Pois a minha, vê-la aí !
– Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi !…
Deus te perdoe, marido,
Que me ías matando aqui.

Almeida Garrett (Porto, 4/2/179 Lisboa, 9/12/1854)
Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, orador, político, deputado, implantou o teatro em Portugal, fundou o Teatro Nacional e o Conservatório.

Maria Alberta Menéres – Lengalenga do Vento
Setembro 30, 2016

Maria Alberta Menéres

Andava o senhor vento

Um dia passeando

Encontrou a formiga:

 

– Senhor vento, que força!

Lá caí de barriga!

 

Andava o senhor vento

Pé ante pé na vinha

quando avistou um cão:

 

– Senhor vento, que força!

Fui de focinho ao chão!

 

Andava o senhor vento

Bailando no Olival

Quando viu um lagarto:

 

– Senhor vento, que força!

Já nem por aqui escapo…

 

Andava o senhor vento

Correndo no jardim

Quando ouviu uma flor:

 

– Senhor vento, que força!

Tenha pena de mim.

 

Andava o senhor vento

A rir pelo pinhal

Quando ouviu a galinha:

 

– Senhor vento, que força!

Uma pinha na pinha!

 

Andava o senhor vento

a brincar pela rua

Quando viu uma cereja:

 

– Senhor vento, que força!

Não me empurre, que aleija!

 

Então o senhor vento

foi para o alto do monte

e encontrou um moinho:

 

– Senhor vento, que bom!

Eu estava tão sozinho!

 

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Celso Cunha – Sentido Figurado
Setembro 30, 2016

celso-cunha

” Sentido figurado é o sentido que toma uma palavra, distanciado da imagem concreta que normalmente exprime.”

Celso Ferreira da Cunha (Teófilo Otoni, 10/5/1917 – Rio de Janeiro, 14/4/1989)
Professor, gramático, filologo e ensaísta.

Alexandre O´Neill – Cão
Setembro 30, 2016

Alexandre O´Neill

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O´Neill (Lisboa, 19/12/1924 – Lisboa, 21/8/1986)
Poeta, cronista e tradutor, fundador do Movimento Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José Augusto França e António Pedro.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada – O Primeiro Dia de Aulas
Setembro 30, 2016

ana-maria-magalhaes-e-isabel-alcada

” O Chico e o Pedro falavam e riam altíssimo, no meio do pátio, deliciados por se sentirem tão à vontade. (…)

Por outro lado os mais novos pareciam intimidados e era mais fácil abordarem os professores ou os empregados…

De qualquer forma reinava  maior animação pelos pátios à hora do intervalo grande.

Junto dos vidros de um dos pavilhões havia um enorme aglomerado de gente, procurando copiar os horários. Alguns pais e mães ajudavam os filhos e tentavam estabelecer uma certa ordem, mas em vão.

Uma miúda tinha-se inclinado e três colegas serviam-se das costas dela como de uma mesa, para apoiar os horários de papel que lhes tinham distribuído à entrada.

Muitos professores giravam por ali, divertidos também. Pareciam contentes por reverem os alunos. (…)”

MAGALHÃES, Ana Maria e ALÇADA, Isabel, Uma Aventura na Escola

 

Ana Maria Magalhães (Lisboa, 14/4/1946)
Escritora de literatura infanto-juvenil em parceria com Isabel Alçada desde 1982, professora, licenciada em Filosofia.

Isabel Alçada (Lisboa, 29/5/1950)
Escritora de literatura infanto-juvenil em parceria com Ana Maria Magalhães desde 1982, professora, licenciada em Filosofia, mestre em Ciências da Educação.

Mário Castrim – Adivinha
Setembro 30, 2016

Mário Castrim

O meu mar é o ar.
Vem nu, vem nu, vem vento
E leva-me a viajar
Por cima do tempo.

Sou tudo o que se quiser
Leão e gato
Homem, mulher,

Fruto e sapato.
Sou feita da imaginação
da água.

A minha raíz está no mar
e nas folhas das árvores.

Quando tenho saudades
da terra choro

c
h
o
v
o
.
.
.

Mário Castrim (Ílhavo, 31/7/1920 – Lisboa, 15/10/2002)
Pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca.
Jornalista, contista, autor de literatura infantil e juvenil, poeta, ensaísta, marido de Alive Vieira e pai da jornalista e escritora Catarina Fonseca.

Manuel António Pina – A Sopa de Letras
Setembro 30, 2016

manuel-antonio-pina

Era uma vez um menino
que não queria comer sopa de letras.
Podiam lá estar coisas bonitas escritas,
mas para ele era tudo tretas…
Podia lá estar escrito COMER,
podia lá estar GOIABADA,
Como ele não sabia ler,
a sopa não lhe sabia a nada.
Tinha no prato uma FLOR,
um NAVIO na colher,
comia coisas lindíssimas sem saber,
mas ele queria lá sabor!
Até que um amigo com todas as letras
lhe ensinou a soletrar a sopa.
E ele passou a ler a sopa toda.
E até o peixe, a carne, a sobremesa, etc.

Manuel António Pina (Sabugal, 18/11/1943 – Porto, 19/10/2012)
Poeta, autor de literatura infanto-juvenil, dramaturgo, ficcionista, jornalista, licenciado em Direito.
Galardoado com o Prémio Camões em 2011.

Almada Negreiros – Mãe! – A Voz do Poeta
Setembro 30, 2016

Almada Negreiros

“(…)

Mãe!

Estou a lembrar-me! Tu já foste a menina loira! Eu já fui menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive contigo na terceira oleografia!

Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o Sol não doía tanto na minha pele!

Mãe!

Estou a lembra-me!

E as tardes quando íamos todos juntos soltar palavras no cais e ver chegar mais laranjas!

Outras vezes juntávamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecesse. Já as laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquela que tinham ganhado.

Eu tinha ganho a minha.

De uma vez, quando deixávamos o cais, entornou-se o cesto das tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôs-se a cantar o sucedido às tangerinas a rolar para o mar:

tam

tam-tam

tanque

estanque

tangerina bola

tangerina bóia

tangerina ina

tangerininha

pacote roto

batuque nu

quintal da nora

e o dique

e o Duque

e o aqueduto

do Cuco

Rei Carmim

e tamarindos

e amarelos

de Mahomet

ali

e lá

e acolá”

 

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

Vinicius de Moraes – O Relógio
Setembro 30, 2016

Vinicius de Moraes

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Branquinho da Fonseca – A Faina
Setembro 30, 2016

Branquinho da Fonseca

“(…) A correr, a gritar, a insultar, a praguejar, misturando nomes de santos e obscenidades, numa luta feroz e alegre, trabalhavam num ímpeto que tinha vindo do mar (…)

Na escuridão, uma fina silhueta de rapariga atraiu uma voz de homem:

– Vá´s amanhã ó Sã Brás?

– ´Tou só à espera d´orde…

A ironia não o venceu:

– A q´horas vá´s?

– À hora do meu reloje…

– Fala-me sero, ah, Mar´Rosa!…

– Vens tão mesmo a falar pra mim, oh!…

– Nã hás-de ser tu que me mordes a crista.

Perdida na noite, ao longe, soava mais uma vez a corneta do homem dos bois, num apelo de contentamento e de paz.

E os animaos mitológicos surgiram das trevas e passavam lavrando com as correntes a areia doirada pela luz dos archotes, passavam devagar e desapareciam na noite, a caminho das luzes que ao sul eram estrelas de bom sinal. (…)”

FONSECA, Branquinho da, Mar Santo

Branquinho da Fonseca (Mortágua, 4/5/1905 – Lisboa, 6/5/1974)
Poeta, contista, romancista e dramaturgo, co-fundador das Revistas: Tríptico, Presença e Sinal – esta com Miguel Torga. Assinou algumas obras com o pseudónimo António Madeira. Filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciado em Direito.