Almada Negreiros – Mãe! – A Voz do Poeta

Almada Negreiros

“(…)

Mãe!

Estou a lembrar-me! Tu já foste a menina loira! Eu já fui menino verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive contigo na terceira oleografia!

Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o Sol não doía tanto na minha pele!

Mãe!

Estou a lembra-me!

E as tardes quando íamos todos juntos soltar palavras no cais e ver chegar mais laranjas!

Outras vezes juntávamo-nos na praia para nadar melhor do que os outros e deixar o sol queimar quem mais merecesse. Já as laranjas estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava a melhor rapariga. Os outros sabiam aquela que tinham ganhado.

Eu tinha ganho a minha.

De uma vez, quando deixávamos o cais, entornou-se o cesto das tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôs-se a cantar o sucedido às tangerinas a rolar para o mar:

tam

tam-tam

tanque

estanque

tangerina bola

tangerina bóia

tangerina ina

tangerininha

pacote roto

batuque nu

quintal da nora

e o dique

e o Duque

e o aqueduto

do Cuco

Rei Carmim

e tamarindos

e amarelos

de Mahomet

ali

e lá

e acolá”

 

Almada Negreiros (Trindade, S. Tomé, 7/4/1893 – Lisboa, 15/6/1970)
Artista multifacetado, desenhador e pintor, ensaísta, dramaturgo, romancista e poeta, colaborador da Revista Orpheu com Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro e fundador de alguns jornais.

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