António Gedeão – Poema das Nuvens Fofas

António Gedeão

Nos píncaros do Olimpo as nuvens pairam
como clara batida, fofa e crespa.
O Olimpo é um monte, e as nuvens, água
que as baixas temperaturas condensaram
em estrelados cristais.
Ali, atrás das nuvens, se instalaram
os deuses, em seus tronos marchetados
(pois se os grandes da Terra tinham tronos
com mais razão os deuses os teriam).
Ali, atrás das nuvens, planearam
o meu futuro,
sem saberem que as nuvens eram água.
Eram, de facto, água,
e como água cairam sobre a Terra.
Primeiro em fios breves, voluptuosos
como chuveiro tépido nas pálpebras;
depois em fios grossos,
em baraços, em cordas, em colunas,
cataratas do céu que o próprio céu ruiram
em bátegas cerradas.
Na precipitação das catadupas de água
envolveram-se os deuses na enxurrada,
deuses e tronos,
e com eles também o meu futuro.

GEDEÃO, António, Poemas Póstumos

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997), pseudónimo de Rómulo de Carvalho
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência Físico-Químicas.

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