Archive for Outubro, 2016

José Rodrigues Miguéis – A Página-Espelho
Outubro 17, 2016

José Rodrigues Miguéis

“19 de Outubro de 1977

O que importa não é que tu escrevas todos os dias algumas centenas ou mesmo milhares de palavras que em breve estarão ressequidas e esquecidas como a folhagem caduca dos Outonos: mas que, de tempos em tempo, componhas uma página em que os humanos se vejam retratados como num espelho – não só a sua imagem aparente, exterior, mas sobretudo a interior e dinâmica.”

MIGUÉIS, José Rodrigues, Aforismos e Desaforismos de Aparício

José Rodrigues Miguéis (Lisboa, 9/12/1901 – Nova Iorque, 27/10/1980)
Contista , novelista, romancista, dramaturgo, cronista, membro do Grupo Seara Nova, colaborador dos jornais: O Diabo, Diário de Notícias, Diário de Lisboa e República, co-director de Semanário O Globo, tradutor e redactor das Selecções do Reader´s Digest, licenciado em Direito e Ciências Pedagógicas.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)
Outubro 17, 2016

Maria Assunção Vilhena

“(…) Não voltámos para casa da senhora velhota nos anos seguintes, é fácil deduzir porquê. No entanto, fomos lá de visita quando estivemos hospedados em casa de duas senhoras solteiras, muito divertidas, que coziam pão para vender. Acho que nesse ano, a estada deve ter sido mais curta, porque não guardo recordações de importância; só me lembro que a casa era perto do rossio, onde brincávamos algumas vezes.

No ano seguinte, voltámos para banhos em moldes diferentes: com casa alugada!

Ainda o sol não tinha nascido, quando fomos acordados por um grande rebuliço no quarto ao lado do nosso – o dos nossos pais. Estremunhadas com sono, sentámo-nos na cama, perguntando umas às outras que barulho era aquele. Ficámos algum tempo a escutar a acabámos por perceber que eram eles a desmanchar o catre de ferro à martelada.

Pelas frinchas das janelas, já entrava um fio de claridade que anunciava um novo dia, aquele que fora destinado para se fazer a mudança para a bonita vila à beira-mar.

Mesmo sem nos mandarem, levantámo-nos e arranjámo-nos para sair. Foi então que minha mãe apareceu para embalar os nossos colchões, mantas, almofadas e lençóis, que iriam acondicionados com capachos algarvios. Estes serviam também para os proteger, à noite, quando se estendessem no chão, pois os nossos catres não iam por não haver espaço para eles na minúscula casa que iríamos habitar, durante a época estival. Era assim que todos os banhistas faziam, pois a exiguidade das casas que alugavam não lhes permitia outra solução.

Nós não íamos a banhos como os lavradores alentejanos mas, como parte da nossa estada coincidia com a deles, considerávamos-nos banhistas, os moços e as moças, claro, pois para os pais era o tempo mais trabalhoso.

Caixotes com louça, legumes e fruta e tudo o mais que era necessário para cozinhar, sacos com roupa, mesas e cadeiras, apenas o indispensável para passar a estação seca, foi carregado numa velha camioneta que completou a carrada com o bando dos moços alegres e faladores, na expectativa dumas férias num ambiente diferente daquele em que habitualmente viviam. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

Valter Hugo Mãe – Biografia Sumariada
Outubro 17, 2016

valter hugo mãe

” A minha biografia, neste instante, poderá sumariar-se assim: matar pesadelos, usar poemas, suportar as dores de cabeça constantes, acreditar na ideia de que há uma Europa boa, encontrar novas formas de presciência ou, de uma vez por todas, desimportar-me com a questão sentenciosa do futuro.”

In JL, 28 de setembro a 11 de outubro de 2016

Valter Hugo Mãe (Saurimo, Angola, 25/9/1971)
Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, editor, artista plástico, cantor, DJ português, licenciado em Direito.

Dificuldades da Língua Portuguesa – Contanto (que) e Com Tanto
Outubro 17, 2016

As Vogais

CONTANTO (que) (desde que, uma vez que, se)

Locução conjuncional condicional.

Exs.: Adiamos a reunião, contanto que o director não compareça.
Iremos ao parque, contanto que te portes bem!

 

COM TANTO

Preposição com+pronome indefinido tanto* (quantidade ou valor).

* Variável

Exs.: Com tanto dinheiro, não admira que o Alfredo comprasse um carro novo.
         Com tanta lábia, enganas qualquer comprador.

 

Alberto da Costa e Silva – Soneto a Vermeer
Outubro 17, 2016

Alberto da Costa e Silva

De luto, a minha avó costura à máquina,
e gira um catavento em plena sala.
Vejo seu rosto, sombra que a janela
corrompe contra um pátio amarelado

de sol e de mosaicos. Sobre a mesa,
a tesoura, um esquadro, alguns retalhos
e a imóvel solidão. A minha avó,
com seus olhos azuis, o tempo acalma.

A minha avó é jovem, mansa e apenas
a limpidez de tudo. Sonho vê-la
no seu vestido negro, a gola branca,

contra o corpo de cão, negro, da máquina:
a roda, de perfil, parece imóvel
e a vida não se exila na beleza.

Alberto da Costa e Silva (Sao Paulo, 12/5/1931)
Poeta, ensaísta, memorialista, historiador, diplomata, filho do poeta António Francisco da Costa e Silva. Galardoado com o Prémio Camões em 2014.

Carta de Vergílio Ferreira a Alberto da Costa e Silva
Outubro 17, 2016

vergilio-ferreira-e-alberto-da-costa-e-silva

” Lisboa, 13/1/83

Meu Caro Alberto:

Vê como os meses fogem. Era para parodiar o velho Horácio: Eheu, fugaces, Alberte, Alberte Labuntur menses…
Mas tu deves estar esquecido do latim, que além do mais é uma língua morta, imprópria para consumo de vivos.

Retomei há dias o teu livro, que tenho tido aqui diante de mim para me avivar o remorso, e só então reparei que mo enviaras há precisamente um ano. Assim, vamos levados nesta corrida de vertigem até ao estampaço final. Para um pouco da minha tranquilidade, vou pensando, nos intervalos de me penitenciar, que também tu ficaste de me enviar um certo romance Valete de Espadas de um brasileiro que já não sei. Mas que sei que foi famoso ao menos quando publicou o livro – E tu – nada.

Olha: os teus poemas são muito bonitos. Rigorosos, limpos, discretamente melancólicos, evocados temporais acti (lá vai Horácio outra vez) todos eles musicais de uma música que tem que ver para mim com o barroco italiano em que há uma tristeza serena, sem grandiloquência nem desespero.

Destaco os poemas: – “Soneto a Vermeer”, “Elegia de Lagos”, “O Café na Copa” e os dois “Sonetos a Vera”. Tu és um poeta que filtra um imenso saber cultural e poético através de uma refinada sensibilidade. O teu grande risco por isso é que erras pouco. Gosto de vez em quando do erro. Torna-nos e ao artista mais humanos.

Vergílio”

Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia, 28/1/1916 – Lisboa, 1/3/1996)
Romancista, contista, ensaísta, autor de diários, galardoado com o Prémio Camões em 1992, professor, licenciado em Filologia Clássica.

João de Melo – Prémio Literário, Reencontro com Vergílio Ferreira
Outubro 17, 2016

João de Melo

O Prémio Vergílio Ferreira de 2016, da Universidade de Évora, foi atribuído a João de Melo pela totalidade da sua obra.

Vejamos o que o vencedor referiu, neste âmbito, ao jornalista  do JL, Luís Ricardo Duarte:

” – Foi uma surpresa completa. Quando se recebe um telefonema com uma notícia destas há um primeiro momento em que não se percebe o que nos estão a dizer. Só depois vem o entendimento, a consciência efetiva de que se trata de um prémio prestigiado, de uma grande universidade, a de Évora, de um júri* muito qualificado e que se respeita. Subitamente, sentimo-nos em muito boa companhia, sobretudo pelos anteriores distinguidos. O normal pensar nestas ocasiões é a quem agradecer este prémio? Ou então: há agradecimento possível? Como não se pede, nem se espera, o melhor é viver o momento. (…)”

Acerca de o Prémio ter como patrono Vergílio Ferreira, manifesta:

“Torna o prémio ainda mais único. É um escritor que muito admiro, que conheci pessoalmente, depois de ter lido a Manhã Submersa e ter sido expulso do seminário (…) por ser ateu e politicamente subversivo. Mas como já tinha o desejo da literatura, ele foi uma das primeiras pessoas que quis conhecer depois de ter saído do seminário, precisamente por ter escrito Manhã Submersa, um livro que me tirou a palavra. (…)

Foi na sua casa. Recebeu-me com muita amabilidade, oferecendo-me um exemplar da recém-lançada Aparição. Tivemos uma longa conversa sobre tudo e sobre nada, o que é próprio da sua obra. Nunca deixei de acompanhar o seu trajeto, em particular a aventura existencialista. E recebi dele, ao longo dos anos, vários sinais de apreço. Em duas ou três ocasiões expressou, com um entusiasmo quase juvenil, o prazer que teve ao ler um livro meu. (…)”

* Constituição do júri: António Sáez Delgado, Elisa Esteves, Gustavo Rubim, Carlos Reis e Lídia Jorge.

In JL, 3 a 16 de fevereiro de 2016

João de Melo (Achadinha, Açores, 04/02/1949)
Contista, romancista, ensaísta, cronista, poeta, professor – ensino secundário e superior – Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, licenciado em Filologia Românica.

Francisco José Viegas – O Conto e o Romance
Outubro 16, 2016

Francisco José Viegas

” (…) não sei escrever contos, nem ou fascinado pela sua arte. Gosto de romances grandes cada vez maiores, quer quando estou a ler, quer quando estou a escrever.  O conto tem uma arte, sim, relacionada com a sua concentração, delimitação, clausura. Mas isso não sei fazer. (…)”

In JL, 30 de março a 12 de abril de 2016

Francisco José Viegas (Vila nova de Foz Côa, 14/3/1962)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, relator de viagens, cronista com o heterónimo António Sousa Homem, jornalista, licenciado em Estudos Portugueses.

David Mourão-Ferreira – A Revista e os Filmes aos 11 Anos
Outubro 16, 2016

david-mourao-ferreira

Recortes da mais antiga das agendas de David, aos 11 anos, recolhidos pela autora de: Chave de Sol – Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, Teresa Martins Marques:

– 21 de maio de 1938

” Fui ao Coliseu ver a revista: Arre Burro com a vedeta da alegria: Beatriz Costa e os azes: António Silva e Vasco Santana.”

– Domingo, 29 do mesmo mês

” Fui à Promotora ver os filmes: Uma Quadrilha, Empresa de fantasmas e Lobos do Mar, com Fredie Bartolomeu. – No filme Lobos do Mar, Spencer Tracy fazia de pescador português.”

In JL de 17 de fevereiro a 1 de março de 2016

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 24/2/1927 – 16/6/1996)
Poeta, novelista, romancista, ensaísta, colaborador de múltiplos jornais e revistas, co-fundador da revista Távola Redonda, professor, licenciado em Filologia Românica.

Ana Zanatti – Escrever
Outubro 16, 2016

ana-zanatti

“(…) A partir do momento em que comecei a interiorizar esse meu lado de pessoa que escreve, fiquei completamente tomada por dentro. Mesmo quando não estou a escrever, estou sempre a escrever.”

In JL, 16 a 29 de março de 2016

Ana Zanatti (Lisboa, 26/06/1949)
Acrtiz, escritora, participante em várias actividades na RTP – apresentação de programas, entrevistas, reportagens.