Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

Maria Assunção Vilhena

“(…) Não voltámos para casa da senhora velhota nos anos seguintes, é fácil deduzir porquê. No entanto, fomos lá de visita quando estivemos hospedados em casa de duas senhoras solteiras, muito divertidas, que coziam pão para vender. Acho que nesse ano, a estada deve ter sido mais curta, porque não guardo recordações de importância; só me lembro que a casa era perto do rossio, onde brincávamos algumas vezes.

No ano seguinte, voltámos para banhos em moldes diferentes: com casa alugada!

Ainda o sol não tinha nascido, quando fomos acordados por um grande rebuliço no quarto ao lado do nosso – o dos nossos pais. Estremunhadas com sono, sentámo-nos na cama, perguntando umas às outras que barulho era aquele. Ficámos algum tempo a escutar a acabámos por perceber que eram eles a desmanchar o catre de ferro à martelada.

Pelas frinchas das janelas, já entrava um fio de claridade que anunciava um novo dia, aquele que fora destinado para se fazer a mudança para a bonita vila à beira-mar.

Mesmo sem nos mandarem, levantámo-nos e arranjámo-nos para sair. Foi então que minha mãe apareceu para embalar os nossos colchões, mantas, almofadas e lençóis, que iriam acondicionados com capachos algarvios. Estes serviam também para os proteger, à noite, quando se estendessem no chão, pois os nossos catres não iam por não haver espaço para eles na minúscula casa que iríamos habitar, durante a época estival. Era assim que todos os banhistas faziam, pois a exiguidade das casas que alugavam não lhes permitia outra solução.

Nós não íamos a banhos como os lavradores alentejanos mas, como parte da nossa estada coincidia com a deles, considerávamos-nos banhistas, os moços e as moças, claro, pois para os pais era o tempo mais trabalhoso.

Caixotes com louça, legumes e fruta e tudo o mais que era necessário para cozinhar, sacos com roupa, mesas e cadeiras, apenas o indispensável para passar a estação seca, foi carregado numa velha camioneta que completou a carrada com o bando dos moços alegres e faladores, na expectativa dumas férias num ambiente diferente daquele em que habitualmente viviam. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

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