Archive for Novembro, 2016

Grupos Naturais – Dar a / Dar a Alma a / Dar a Benção / Dar à Bomba / Dar Abrigo / Dar à Canela / Dar à Casca
Novembro 30, 2016

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar a – chegar, alcançar.

Ex.: Esta rua vai dar à praça.

 

Dar a alma a – morrer

Ex.: Há cinco anos, o meu paizinho deu a alma a Deus.

 

Dar a benção – abençoar.

Ex.: O padre deu a benção à jovem.

 

Dar à bomba – mover, accionar.

Ex.: O Manuel fartou-se de dar à bomba.

 

Dar abrigo – alojar.

Ex.: A D. Maria deu abrigo ao pobre.

 

Dar à canela – andar depressa.

Ex.: A Vera vai dar à canela para apanhar o Tomé.

 

Dar à casca – aborrecer-se, encavacar.

Ex.: A Leonor deu à casca quando a chefe a elogiou.

(continua)

António Gedeão – Poema da Malta das Naus
Novembro 30, 2016

António Gedeão

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com um palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escoburto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que os outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
Nas praias de Portugal.

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997), pseudónimo de Rómulo de Carvalho
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência Físico-Químicas.

António Manuel Couto Viana – Barcarola
Novembro 30, 2016

António Manuel Couto Viana

 

Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar…
A escuna é espuma, é luar…
Madrugada! Madrugada!

António Manuel Couto Viana (Viana do castelo, 24/01/1923 – Lisboa, 08/06/2010)
Poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor.
Dirigiu os Cadernos de Poesia, Távola Redonda e as revistas culturais:Graal e Tempo Presente.

Fernando Lemos – Hino Triste sem Melodia
Novembro 30, 2016

Fernando Lemos

Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura    após o retrato
a epopeia   depois do relato.

Às armas… Às armas…
Nuno Gonçalves    primitivo
educado    colectivo passaporte
nobre povo   mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados    não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos    abandonados.

Almada imortal plantel
Negreiros    atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.

Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo    já que
primeiro Colombo    depois
Cabral.

Azar mas… Azar mas…
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos    48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar   navegar    voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.

Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras    não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.

É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima    depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso    sem alegria.

Primeiro a República
avental da Monarquia    depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria    cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.

Camões que precisou
naufragar    para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.

Nação    sem dúvida   valente e imortal
na emigrância    per capita
fundamentar.

Azar mas… Azar mas…
unha por cunha    coisa por loisa
casamento por procuração    depois
por Brasil a noiva.

Fernando Pessoa    que foi Ser
português    voltou
para conferir    a língua desolado
fiscal do produto viciado.

25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo    enredo
sem uma história prevista.

Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico    o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha    depois do óbvio
da adivinha.

Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai    da rainha.
Mas primeiro país    depois
Portugal.

Pobreza em pó    orgulho
pre-conceito    generoso
e desfeito.
Viva meu irmão    do coração
azar mas…às armas…
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!

 

Fernando Lemos (Lisboa, 1926)
Fotógrafo, poeta, jornalista, pintor, publicitário e desenhador .

João Rui de Sousa – Via Aberta ou o Mar em Volta
Novembro 30, 2016

João Rui de Sousa

Ter o destino em aberto
para o impulso do salto.
Ter sempre o olhar mais perto
daquilo que está mais alto.

Ter a seiva e ter o fito
Das palavras em semente.
Ter o sonho sempre rente
aos ombros do infinito.

Ter das coisas todo o lume
Desde o fim ao seu começo.
Ter as mãos que se entreabrem
à ilha que seja berço,

ao espaço que seja infindo,
à praia que seja o mundo
de um amor que não tem preço
nem superfície nem fundo.

E seguir no desalinho
dos navios fora de rumo
por mares sem endereço.

João Rui de Sousa (Lisboa, 12/10/1928)
Poeta, ensaísta e crítico literário, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

António Osório – As Gaivotas
Novembro 30, 2016

António Osório

No inverno pertence-lhes a praia. Outros ocu-
pantes, de passo miúdo, apensionado, aterram,
planando, no seu aeroporto, as gaivotas. Infide-
rentes aos cães, deles superiormente se esquivam.

Escolhem, para ver gente, o ponto iluminante
dos candeeiros. São curiosas, húmidas, algo de
pombo, milhafre, cinza.

No cais ao peixe-espada (ficarão sobre a areia,
lota, saque de guerra) pescadores armam ratoei-
ras de nylon. Carapaus do anzol
Dissimulantes. Com bordo, garra de âncora.

As gaivotas aguardam o que não temem, as de-
soluções do mar-
Belos, desterrados, abutres.

António Osório [de Castro] (Setúbal, 1/8/1933)
Poeta, licenciado em Direito.

Rosa Lobato Faria – De Ti Só Quero…
Novembro 30, 2016

Rosa Lobato Faria

De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

 

Rosa Lobato Faria (Lisboa, 20/4/1932 – Lisboa, 2/2/2010)
Poetisa, guionista, compositora, declamadora e atriz.

 

Amadeu Baptista – Detém-te…
Novembro 30, 2016

amadeu-baptista

“Detém-te, escuta como as aves entram na pedra sob a forma de sol, a
tranquilidade
inviolada do coração, a árvore branca e o pássaro azul
mergulham na água frágil da inocência, inclinam
as sombras esplêndidas para o diamante do dia – eleva-se sobre a colina

o perfil da manhã, pequenos bagos de chuva luminosa desprendem-se
da planície, alguém
colhe da noite as rosas magníficas do espírito, escuta, apesar das ter-
ríveis promessas de devastação.”

de O Sossego da Luz

Amadeu Baptista (Porto, 06/05/1953)
Poeta traduzido em vários idiomas, colaborador em diversas publicações nacionais e estrangeiras, membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Clube Português, detentor de prémios literários.

Fernando Luís Sampaio – Os Crisântemos
Novembro 30, 2016

Fernando Luís Sampaio

Os crisântemos abriram.
O céu que sobrevoa a minha
casa desata
uma luz intolerável.

A varanda de pedra acolhe
cadeiras, vasos e o ágil
inquilino dos meus passos.

sobre arrebatado vento
vai o mundo.

de Hotel Pimodan

 

Fernando Luís Sampaio (Moçambique, 1960)
Poeta.

João Luís Barreto Guimarães – Lado um – Manual do engano
Novembro 30, 2016

joao-luis-barreto-guimaraes

bom dia bom dia sou aquele teu amigo: quantas luas
conhecemos desde mil970 e tal? num quadrado perfeito
todos os ângulos são iguais (o pátio da escola) sabes?:

o sol nem sempre se põe pelo atalho mais curto os
dias consomem-se (tão) como fogo nem a própria
sombra reconhecem. vamos ver (falo o sacristão:) “quem
foi que roubou hóstias da gatinha de cima do armário?”.

hoje nada sei de ti. vejo-te sentado a uma mesa
de café (reconfirmando ingredientes no rótulo dessa
poção de nuvens:) momento fe pausa? ou falta de
verão: como quem fala de ter ou não ter amarras.

crescer: resta a consolação de com os dedos
podermos fazer quase tudo e ter nos olhos silêncios
e razões inventados entre dunas (e matos)

de Há Violinos na Tribo; 3

João Luís Barreto Guimarães (Porto, 3/6/1967)
Poeta e cirurgião plástico.