António Feijó – Timidez de Amor

António Feijó

Perguntas donde vem a timidez estranha,
Este quase terror com que te falo e escuto,
Como se a sombra hostil duma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão deste absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é sinal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo e tremo,
– Se passas como um sol de plantas cercado –
Sem dar mostras sequer desse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho…
Mas, se é sincero, o Amor só a ocultas se exalta,
Faz – se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que crês fingida gravidade
É uma íntima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o anel nupcial não há pedras preciosas.

FEIJÓ, António, Sol de Inverno

António Feijó (Ponte de Lima, 1/6/1859 – Estocolmo, 20/6/1917)
Poeta e diplomata, fundador da Revista Científica e Literária com Luís de Magalhães – 1880, Coimbra -, colaborador nas revistas: Arte, A Ilustração Portuguesa, O Instituto, Novidades, Museu Ilustrado, licenciado em Direito.

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