Pedro da Silveira – (à maneira de Cesário Verde, propositadamente)

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Agitação dos dias de baleia!
Marinheiros correndo para o porto.
Iguala o Universo num grão de areia
e o Nada é um doutor de olhar absorto.

A bomba que rebenta na vigia
sacode o ar num sobressalto de asas.
A vida igual de sempre dir-se-ia
outra na lida habitual das casas.

Mas à agitação se segue logo
uma ansiedade vã sobre a paisagem:
em cada coração crepita um fogo
à espera apenas de uma leve aragem.

Depois, qualquer sinal no horizonte
parece um barco – e uma baleia morta?
Um binóculo espreita, ali defronte,
E um vulto de mulher assoma à porta.

Inquieto, alguém pergunta: – Que é? Que foi?
Um coração lento cruza a dúbia praça;
reflecte a placidez do boi
a morna placidez da tarde baça.

Mas não há uma vela pelo mar!
As horas passam, moles, arrastadas…
A noite vem… Os botes sem chegar!
E um choro enche as casas desoladas.

 

Pedro Laureano Mendonça da Silveira (Açores, Fajã Grande, 05/09/1922 – Lisboa, 13/04/2003)
Poeta, ensaísta, tradutor, investigador, colaborador em periódicos e revistas, nomeadamente a Seara Nova, onde integrou o conselho de redação, a Colóquio de Letras e a Vértice, participou também na comissão de gestão da Biblioteca Nacional de Lisboa, na qual foi diretor dos Serviços de Investigação e de Atividades Culturais, divulgou n´A Ilha, jornal micaelense, o movimento literário de Cabo Verde, através da revista Claridade.

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