Fernando Lemos – Hino Triste sem Melodia

Fernando Lemos

Nós heróis do mar eis
nobre povo sempre as naus
na frente dos reis.
Primeiro a moldura depois
a pintura    após o retrato
a epopeia   depois do relato.

Às armas… Às armas…
Nuno Gonçalves    primitivo
educado    colectivo passaporte
nobre povo   mas mísera sorte.
Onde pousaram às pressas
retornados    não idos sentados
nos projectos
como se já fossem
esmaecidos    abandonados.

Almada imortal plantel
Negreiros    atrás da tábua
que no painel falta
para justificar a malta.

Levantai hoje de novo
todo o esplendor de Portugal
galinha após o ovo    já que
primeiro Colombo    depois
Cabral.

Azar mas… Azar mas…
pela pátria lutar.
Depois da casa roubada
as portas trancar.
Somar os séculos de Império
e Salazar pelos dedos    48 anos
detrito familiar.
Contar os trajectos
navegar   navegar    voltar
após vinhetas de sangue
fazer o mosteiro
capacho de choro milenar.

Chamar Nuno Gonçalves para pintar
Almada para reconstituir
murais para a nação destilar.
Quem vê caras    não vê brasões
daí os retratos
e as condecorações.

É assim somos assim meu irmão
primeiro vítima    depois
o Dom de Sebastião.
Para nós a Humanidade
é uma lotaria.
Fomos grandes por fora
colonos do riso    sem alegria.

Primeiro a República
avental da Monarquia    depois
maçónica a Ditadura
com selvajaria    cheia de Peros
de Vazes de Escrivaninha.

Camões que precisou
naufragar    para o original
dos Lusíadas na tormenta editar.

Nação    sem dúvida   valente e imortal
na emigrância    per capita
fundamentar.

Azar mas… Azar mas…
unha por cunha    coisa por loisa
casamento por procuração    depois
por Brasil a noiva.

Fernando Pessoa    que foi Ser
português    voltou
para conferir    a língua desolado
fiscal do produto viciado.

25 de Abril
apoteose de revista
todos os bons restantes
com os maus de antes
sem pontos de vista.
agora sem medo    enredo
sem uma história prevista.

Agora o fado espanta
nosso retiro e desespero
talvez nos paguem a conta
ou só irónico    o tempero.
Talvez se aprenda o ovo
depois da galinha    depois do óbvio
da adivinha.

Levantai hoje de novo
o esplendor da galinha
o imortal povo
ovo pai    da rainha.
Mas primeiro país    depois
Portugal.

Pobreza em pó    orgulho
pre-conceito    generoso
e desfeito.
Viva meu irmão    do coração
azar mas…às armas…
pela pátria lutar depois
sem mar
só com chão Recomeçar!

 

Fernando Lemos (Lisboa, 1926)
Fotógrafo, poeta, jornalista, pintor, publicitário e desenhador .

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