Archive for Janeiro, 2017

João José Cochofel – Poemeto para o Poema “Sol de Agosto” – VI
Janeiro 31, 2017

João José Cochofel

Rapariga delicada,
tôda em vôos e perfumes:
em ti é a tarde que afago
e o sol dos olhos e dos cabelos.
– Dá-me as tuas mãos:
entre nós, nem ciúmes
nem mêdos.

O dia, hoje,
teceu grinaldas para os nossos dedos.

In Cadernos de Poesia

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (Coimbra, 17/07/1919 – Lisboa, 14/03/1982)
Poeta, ensaísta, crítico literário e musical, colaborador em várias revistas: Altitude, Cadernos do Meio-Dia, Vértice, Presença, Seara Nova, integrou a geração neo-realista coimbrã e a organização do Novo Cancioneiro (1941), foi diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Organizou e dirigiu o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, desde o início da sua publicação, em 1971.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas.

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Mário de Andrade – Poemas da Negra
Janeiro 31, 2017

Mário de Andrade

a Cícero Dias

I
Não sei por que espírito antigo
Ficamos assim impossíveis…

A Lua chapeia os mangues
Donde sai u favor de silêncio
E de maré.
És uma sombra que apalpo
Que nem um cortejo de castas rainhas.
Meus olhos vadiam nas lágrimas.
Coberta de estrelas,
Meu amor!

Tua calma agrava o silêncio dos mangues.

II

Não sei si estou vivo…
Estou morro.
Um vento momo que sou eu
Faz auras pernambucanas.
Rola rola sob as nuvens
O aroma das mangas.
Se escutam grilos,
Cricrido continuo
Saindo dos vidros.
Eu me inundo de vossas riquezas!
Não sou mais eu!

Que indiferença enorme. ..

III

Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.

Sol-pôsto.

É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.

Que sono…

Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.

 

Mário de Andrade (S.Paulo, 9/10/1893 – S. Paulo, 25/2/1945)
Poeta, romancista, ensaísta, crítico literário, musicólogo.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – António Jacinto – Monangamba
Janeiro 31, 2017

António Jacinto

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:

Naquela roca grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
– “Monangambééé…”

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

– “Monangambééé…”

António Jacinto (do Amaral Martins) (Luanda, 28/9/1924 – Lisboa, 23/6/1991)
Poeta e contista, que neste contexto usava o pseudónimo de Orlando Távora, recebeu o prémio Nacional de Literatura em 1985.

António José Forte – O Poeta em Lisboa
Janeiro 26, 2017

António José Forte

 
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha – numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

 

António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 10/2/1931 – Lisboa, 15/12/1988)
Poeta ligado ao Movimento Surrealista Português.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Guiné-Bissau – António Baticã Ferreira – A Fonte III
Janeiro 26, 2017

António Baticã Ferreira

 

É verdade, como príncipes,
De tudo cantamos,

Nos, príncipes de Baboque
Bem amados,
Pelo sangue
Oriundos daquele Rei,

Daquele que é Rei dos Reis;
Nos que vimos do seu Reino,
De todos o mais poderoso e vasto,
Como o Reino de Baçarel.

(E Baçarel é um grande Reino,
Onde príncipes vêm a luz;
Baçarel, terra bem nobre,
Seu lugar de nascimento.)

 

António Baticã Ferreira (Canchungo, Cacheu, Guiné-Bissau, 25/12/1939)
Poeta, colaborado em várias publicações, médico.

António Aleixo – Onde Nasceu a Ciência e o Juízo?
Janeiro 26, 2017

António Aleixo

MOTE

— Onde nasceu a ciência
— Onde nasceu o juízo
Calculo que ninguém tem
Tudo quanto lhe é preciso

GLOSAS

Onde nasceu o autor
Com forças p’ra trabalhar
E fazer a terra dar
As plantas de toda a cor
Onde nasceu tal valor
Seria uma força imensa
E há muita gente que pensa
Que o poder nos vem de Cristo
Mas antes de tudo isto
Onde nasceu a ciência

De onde nasceu o saber
Do homem, naturalmente.
Mas quem gerou tal vivente
Sem no mundo nada haver
Gostava de conhecer
Quem é que formou o piso
Que a todos nós é preciso
Até o mundo ter fim
Não há quem me diga a mim
Onde nasceu o juízo

Sei que há homens educados
Que tiveram muito estudo
Mas esses não sabem tudo
Também vivem enganados
Depois dos dias contados
Morrem quando a morte vem
Há muito quem se entretém
A ler um bom dicionário
Mas tudo o que é necessário
Calculo que ninguém tem

Ao primeiro homem sabido
Quem foi que lhe deu lições
P’ra ter habilitações
E ser assim instruído
Quem não estiver convencido
Concorde com este aviso
— Eu nunca desvalorizo
Aquel’ que saber não tem
Porque não nasceu ninguém
Com tudo quanto é preciso

António Aleixo (Vila Real de Santo António, 18/2/1899 – Loulé, 16/11/1949)
Poeta popular de grande relevo.

Américo Durão – A Jesus Crucificado
Janeiro 26, 2017

Américo Durão

 

Volta de novo à Terra,
Alvo e manso Cordeiro,
Vem resgatar os homens
De pecados sem fim.

O preço do resgate
Só o teu corpo e o teu sangue
O poderão pagar.

Nesta hora de fé,
Eu te prometo e juro
Que hás-de tornar a ser
Por nós crucificado.

Ao cimo do Calvário,
Maria nossa Mãe,
A açucena da Terra
E o arco-íris do Céu,
Há-de estar a teu lado.

E o azul do seu manto,
Ao pé de ti, será
O luar reflectido
Sobre o esplendor do Sol.

Américo Durão (Coruche, 28/10/1893 – Lisboa, 7/3/1969)
Poeta e dramaturgo, licenciado em Direito.

Teixeira de Pascoaes – Saudade
Janeiro 22, 2017

Teixeira de Pascoaes

“Saudade é criação, perpétuo casamento fecundo da Lembrança com o Desejo, do Mal com o Bem, da Vida com a Morte…”

Pascoaes, Teixeira de,  in A Águia , Dezembro de 1913

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877- Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

Maria Azenha – Respira a Neve…
Janeiro 22, 2017

Maria Azenha

Respira a neve no encosto alvo da madrugada:

rosa branca de água no pedestal da montanha

naufrágio da prata ou de minúscula aranha

que nos cedros do coração vem, exacta,

quebrar a dália do mármore.

O vidro , reflectido nas palavras do chão,

recomeça

buscando em cada superfície pombas de claridade

 

Maria Azenha (Coimbra, 29/12/1945)
Poetisa, professora, licenciada em Ciências Matemáticas.

Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)
Janeiro 22, 2017

Maria Assunção Vilhena

“(…) Depressa nos habituámos ao apito estridente e prolongado do “Frito”, anunciando a chegada de mais uma traineira a abarrotar de sardinha ou cavala.

Ao ouvi-lo, as operárias saíam de casa a correr, algumas a acabar de se vestir ou a pôr o lenço branco obrigatório, outras a engolir a última dentada de pão.

Corriam céleres, aspirando o cheiro a salmoura e a peixe seco pendurado às portas – reserva para os dias de mau mar – e pisavam, com chinelos de ourelo, as escamas prateadas que, despejadas na água de lavar o peixe, estavam secas e encaracoladas e estalavam debaixo dos pés. (…)

Trabalho na fábrica de conservas no Verão era sinal de menos fome no Inverno. Não era fácil o trabalho  das operárias nas fábricas, mas nós, os miúdos, alheios a esse trabalho penoso, brincávamos todo o dia na rua ou no Rossio cercado de buxos, onde havia um poço e um coreto.

Só entrávamos em casa nas horas de comer ou de dormir e era então que nos apercebíamos do que era a nossa casa de banhistas, que tinha a vantagem  de, não tendo catres de ferro, podermos saltar sobre os colchões de lã sem nos magoarmos. (…)

Minha mãe fez uma grande amizade com a vizinha mais próxima – a Senhora Luzia – que era quase da mesma idade e tinha um carácter semelhante.  O marido raramente estava em casa, pois andava na faina da pesca com um pequeno barco ou ia vender o peixe com o burro. (…)

Também nós fizémos as nossas amizades entre os filhos desse casal e os dos casais de pescadores ou de banhistas.

A minha maior amiga viria a ser a Ivete, a segunda filha da Senhora Luzia, quase da mesma idade que eu e cuja amizade se havia tornado tão profunda e tão sincera que havia de durar até ao fim da sua vida, ainda não há muitos anos. (…) Passeávamos no Rossio e por toda a vila a fazer recados às nossas mães. Íamos às lojas, ao talho, à Primorosa que, na minha ignorância de mocinha do monte julgava que significava “ir à do primo Rosa”… (…)

Nesses recuados tempos de banhos, já havia barracas na praia, mas os banhistas, vindos do campo, não as alugavam talvez por serem caras. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.