Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

Maria Assunção Vilhena

“(…) Depressa nos habituámos ao apito estridente e prolongado do “Frito”, anunciando a chegada de mais uma traineira a abarrotar de sardinha ou cavala.

Ao ouvi-lo, as operárias saíam de casa a correr, algumas a acabar de se vestir ou a pôr o lenço branco obrigatório, outras a engolir a última dentada de pão.

Corriam céleres, aspirando o cheiro a salmoura e a peixe seco pendurado às portas – reserva para os dias de mau mar – e pisavam, com chinelos de ourelo, as escamas prateadas que, despejadas na água de lavar o peixe, estavam secas e encaracoladas e estalavam debaixo dos pés. (…)

Trabalho na fábrica de conservas no Verão era sinal de menos fome no Inverno. Não era fácil o trabalho  das operárias nas fábricas, mas nós, os miúdos, alheios a esse trabalho penoso, brincávamos todo o dia na rua ou no Rossio cercado de buxos, onde havia um poço e um coreto.

Só entrávamos em casa nas horas de comer ou de dormir e era então que nos apercebíamos do que era a nossa casa de banhistas, que tinha a vantagem  de, não tendo catres de ferro, podermos saltar sobre os colchões de lã sem nos magoarmos. (…)

Minha mãe fez uma grande amizade com a vizinha mais próxima – a Senhora Luzia – que era quase da mesma idade e tinha um carácter semelhante.  O marido raramente estava em casa, pois andava na faina da pesca com um pequeno barco ou ia vender o peixe com o burro. (…)

Também nós fizémos as nossas amizades entre os filhos desse casal e os dos casais de pescadores ou de banhistas.

A minha maior amiga viria a ser a Ivete, a segunda filha da Senhora Luzia, quase da mesma idade que eu e cuja amizade se havia tornado tão profunda e tão sincera que havia de durar até ao fim da sua vida, ainda não há muitos anos. (…) Passeávamos no Rossio e por toda a vila a fazer recados às nossas mães. Íamos às lojas, ao talho, à Primorosa que, na minha ignorância de mocinha do monte julgava que significava “ir à do primo Rosa”… (…)

Nesses recuados tempos de banhos, já havia barracas na praia, mas os banhistas, vindos do campo, não as alugavam talvez por serem caras. (…)”

(continua)

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

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