Mário de Andrade – Poemas da Negra

Mário de Andrade

a Cícero Dias

I
Não sei por que espírito antigo
Ficamos assim impossíveis…

A Lua chapeia os mangues
Donde sai u favor de silêncio
E de maré.
És uma sombra que apalpo
Que nem um cortejo de castas rainhas.
Meus olhos vadiam nas lágrimas.
Coberta de estrelas,
Meu amor!

Tua calma agrava o silêncio dos mangues.

II

Não sei si estou vivo…
Estou morro.
Um vento momo que sou eu
Faz auras pernambucanas.
Rola rola sob as nuvens
O aroma das mangas.
Se escutam grilos,
Cricrido continuo
Saindo dos vidros.
Eu me inundo de vossas riquezas!
Não sou mais eu!

Que indiferença enorme. ..

III

Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.

Sol-pôsto.

É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.

Que sono…

Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.

 

Mário de Andrade (S.Paulo, 9/10/1893 – S. Paulo, 25/2/1945)
Poeta, romancista, ensaísta, crítico literário, musicólogo.

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