Archive for Fevereiro, 2017

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Carlota de Barros – Morna
Fevereiro 28, 2017

Carlota de Barros

 

(à memória de Ildo Lobo)*

Morna

encanto de um povo
brando sensual

melodia suave
chuva miudinha
na telha

ressonância do sopro das ilhas
na nudez dos montes sequiosos

eco silencioso da nostalgia
de um povo pobre
caminheiro solitário no mundo

Morna
melodia de amor esperança e saudade
de um povo simples
náufrago nas ilhas
que Deus sonhou e povoou

Morna
doce canto do ilhéu
na valsa lenta das ondas
voz de um povo de poetas a namorar o mar

Morna
carícia nua
no coração da nossa terra
pobre e desflorida

BARROS, Carlota, Sonho Sonhado

* Ildo Lobo – cantor e compositor cabo-verdiano

 

Carlota de Barros (Cabo Verde, Ilha do Fogo, 24/01/1942)
Poetisa, colaboradora de diversas publicações, professora do ensino secundário, licenciada em Filologia Germânica.

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Carlos Nejar – A Idade
Fevereiro 28, 2017

Carlos Nejar

Falou e disse um pássaro,
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que calássemos
e disse amor, penúria, brevidade.
E disse disse
a idade da eternidade.

Carlos Nejar (Brasil, Porto Alegre, 11/1/1939)
Poeta, ficcionista, tradutor, crítico, membro da Academia Brasileira de Literatura, conhecido por “poeta do pampa brasileiro”.

Grupos Naturais – Dar Alívio / Dar a Lume / Dar à Luz / Dar a Mão / Dar a Morte / Dar Andamento (a) / Dar Ânimo
Fevereiro 28, 2017

As Vogais

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar alívio – atenuar a dor.

Ex.: O medicamento está a dar-lhe alívio.

 

Dar a lume – publicar.

Ex.: Hoje dá a lume o décimo do livro do DC.

 

Dar à luz – parir.

Ex.: A Joana dá à luz em Agosto.

 

Dar a mão – ajudar; consentir no casamento.

Ex.: Nos momentos difíceis, o irmão deu-lhe sempre a mão.

O Sr. Silva deu a mão da filha ao Sr. Barão.

 

Dar a morte – matar.

Ex.: O acidente deu a morte ao jovem poeta.

 

Dar andamento (a) – despachar.

Ex.: A repartição está a dar andamento ao seu pedido.

 

Dar ânimo – encorajar.

Ex.: As suas palavras deram ânimo à jovem estudante.

(continua)

Natércia Freire – Senhora Dona Burguesa
Fevereiro 27, 2017

Natércia Freire

Senhora Dona Burguesa,
Dentro da sala fiando,
Com olheiras de tristeza,
Fia o sonho e vai sonhando.

Cantam pássaros na tarde.
Senhora Dona Burguesa
Recolheu as mãos e arde
Na romântica tristeza
De ouvir pássaros na tarde.

Já espreitou da velha torre
Campos e montes de Espanha.
Disse à nuvem: – Corre, corre,
Conta o mal que me acompanha.
De nada serve espreitar
Campos e montes de Espanha…

O silêncio envolve tudo:
Compõe teus olhos, Senhora.
Touca e manto de veludo,
Longos dedos cor de aurora.

Voz débil, de flor cansada,
No esquecimento da vida.
Dona Senhora do Nada,
Nas sombras adormecida.

Vieram carros buscar
Senhora Dona Burguesa,
Para a levar a passear.
A Senhora estava presa,
Imóvel, no seu lugar. . .

Já correra o mundo todo
Com olhos de navegar.
Enterrara-se no lodo,
E um anjo a fora salvar.

Depois subira às ameias,
De mãos atadas e nua.
– Altura? Brumas? Areias!
Deitem-na, morta, às areias.
Não há mais cópias de lua!

Senhora Dona Burguesa
Ouvia o Anjo falar,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar. . .

Enfeitara-se o coreto;
Logo à volta houvera danças.
Senhora Dona Burguesa
Levara vestido preto
E laços pretos nas tranças.

Levara vestido justo,
Justo no seio e nas ancas;
Vestido preto a acabar
No branco das pernas brancas.

Todos a viram calçada
Com ar de sonho e vigília.
Todos a viram sentada
Por entre a sua família.
Todos a viram modesta,
Sorridente e sossegada…

Senhora Dona Burguesa
Andou descalça na festa
E foi por todos pisada.

Quando a deitaram na cama,
Ninguém viu que se morria.
Tinha os cabelos em chama,
E à chama, ninguém a via. . .

Enfeitaram mais coretos,
Houve mais cantos e danças.
Mulheres vestidas de preto,
Com laços pretos nas tranças,
Endoideceram o espaço
De saudade e ventania,
De cantigas, de cansaço,
De pecado e de alegria. . .
(Senhora Dona Burguesa
No escuro se repetia…)

Quando viram que era morta,
Teve que ir a enterrar.
Não é preciso trazer
Carros para a passear.
Não subirá torres altas,
Para delas espreitar
Campos e montes de Espanha,
Brumas, areias do mar…

Não deverá ter impérios
Quem deles não sabe usar.
Só terá vestidos pretos
Para neles se amortalhar.

Senhora Dona Burguesa,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar.

Senhora Dona Burguesa
Sem história para contar!…

Natércia Freire (Benavente, 28/10/1920 – Lisboa, Dezembro de 2004)
Poetisa, prosadora, colaboradora em diversas publicações, conferencista, compositora musical, professora do ensino primário.

Cassiano Ricardo – Não Sou o Herói do Dia
Fevereiro 27, 2017

Cassiano Ricardo

Não sou o herói do dia.
A vida me obrigou
a comparecer, sem convite, ao banquete,
em que me vejo, agora, erguendo a taça,
não sei a quem.
Soldado que lutou sem querer, por força
do original pecado, e em cujo peito não fulgura,
até hoje, nenhuma
condecoração.

Não sou o herói do dia. Passei pela vida
como quem passa
por um jardim público, onde há uma rosa proibida
por edital.
A rosa de ninguém, a rosa anónima
que aparece jogada sobre o túmulo
do desconhecido, todas as manhãs.

É bem verdade que, em menino, eu possuía uma banda de música
que tocava no circo, acompanhava enterro,
que tomava parte em procissão de encontro
e nos triunfos da legalidade.
Hoje, porém, – pergunto -, onde o pitão, o bombardino, o saxofone, a flauta, a clarineta,
os instrumentos todos
dessa banda de música?
Todos quebrados, os respectivos músicos caídos
num só horizonte.
Minha banda de música, se existe,
é agora
de homens descalços e instrumentos mudos.

Não sou o herói do dia.

Ah, o silêncio
de alguns amigos que deviam falar e não falam.
O grande silêncio
da banda de música que devia tocar e não toca.
O silêncio espantoso
de quem devia estar gritando
desesperadamente, e ficou quieto.
E ficou quieto, sem explicação.
Maestro, não é hora de tocar-se o hino nacional?

Ah, positivamente,
não sou o herói do dia!

 

Cassiano Ricardo (São José de Campos, Brasil, 26/6/1895 – Rio de Janeiro, 14/1/1974)
Poeta, ensaísta, jornalista, licenciado em Direito.

Ana Luísa Amaral – Uma constante da Vida
Fevereiro 27, 2017

Ana Lúisa Amaral

Errámos junto
à História: devíamos
pegar em foices e enxadas
e destruir mil campos
de pensar:
computadores, ogivas nucleares,
assentos petrolíferos e mais:
centrais de mil cisões
(e, já agora, aquele pequeníssimo
sonar)

Errámos pela
História: enquanto tempo,
devíamos pegar nas foices,
nas enxadas.
E nos anéis das fadas
plantar outras sementes: bombas
despoletadas, ferrugentas,
que dessem trigo e paz

Errámos nas histórias
de encantar:
um lobo freudiano, um capuchinho,
um osso pela grade
da prisão.
Voltaram as sereias
sentadas no olhar em devoção
(sem nunca terem nem sequer
partido)

(E seduz-nos ainda
esse cantar.)
Errámos sem saber
que o seu vagar é tal
que o sonho, cedo ou tarde,
se fará.
Que ao lado da cisão: a catedral
e ao lado do vitral: irracional
razão

A história junto
à História,
a enxada quebrada pelo chão

Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956)
Poetisa, escritora de literatura infantil, tradutora, professora universitária, licenciada em Germânicas, doutorada em Literatura Norte-Americana.

Manuel Bandeira – Maçã
Fevereiro 27, 2017

Manuel Bandeira

 

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão
[placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

 

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

Salette Tavares – Aqui Estou
Fevereiro 27, 2017

salette-tavares


Aqui estou, no encontro dos caminhos
no sítio onde os olhares se dobram de terror…
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.

Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.

Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.

Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.

 

Salette Tavares (Lourenço Marques, Moçambique, 1922 – Lisboa, 1994)
Poetisa, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas e dedicou-se aos estudos de: Linguística, Estética, e Teoria da Arte, integrou o grupo da poesia experimental e visual em Portugal.

Flor Campino – Sob as Árvores
Fevereiro 27, 2017

Sob as árvores

abertas a todos os espaços,

consente a mágoa o canto

que, provisoriamente,

nos preserva.

Contra a nossa própria sombra

onde funde toda a dissonância

somos puro labor

passagem estreita para sítios

que do alto se eximem

e do baixo.

 

Flor Campino (Tomar, 1943)
Escritora e pintora.

Wenceslau de Moraes – O Chá Japonês
Fevereiro 27, 2017

wenceslau de Moraes

“O chá japonês, servido invariamente sem leite e sem açúcar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar (não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador… que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões afectivas características…).

O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquefazer os aromas das flores — flores dos jardins, flores silvestres —, transferindo do olfacto ao paladar a impressão do gozo.”

 

MORAES, Wenceslau, O Culto do Chá

 

Wenceslau José de Sousa de Moraes (Lisboa, 30/05/1854 – Tokushima, 01/07/ 1929)
Escritor e militar da marinha portuguesa.