Jorge de Sena – Carta ao Amigo Eugénio de Andrade

Jorge de Sena

“Madison, Wis., USA, 25 de Maio de 1969

Querido Eugénio,

Ontem chegou a tua carta com as tuas impressões de Cadafy traduzido, e a certeza de que ele aportou ao porto em paz. (…)

Em matéria de glória, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível, e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. (…)

Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado. (…)

E o que mais me dói é o desprezo por tudo o que é português, como se fôssemos uma espécie de leprosos do universo, sem interesse algum. (…)

Eu estimo o que é admirável, ou, por interesse de cultura, o que seja significativo. (…)

Tudo isto ainda é – ridiculamente – lamúria por causa do prémio. Não é grande coisa, nenhum é aí. Mas tapava a boca a muita gente, abria-me muitas portas,  e teria enorme repercussão aqui, porque a essas coisas a americana é sensível. (…)

E o prémio seria também uma bofetada para lá. Paciência, boa para a vista, como dizia a minha avó. E o dinheirinho, meu filho, neste inferno sem saída que é financeiramente a minha vida com a família que tenho ([…] que não posso ter dinheiro para educar universitariamente, se eles não arranjam notas que lhes garantam bolsas – e que, sem tal, nos tempos que correm, acabam a lavar pratos ou carros), donde venha faz-me arranjo.

Que sou honesto, firme, etc., quando há tantos governos deste mundo para que se pode trabalhar chorudamente – mas eu estou sempre do lado dos que caem ou não sobem…

Logo que o volume das traduções esteja pronto – ficá-lo-á esta semana que entra, em que começam curtas férias antes dos cursos de verão -, mandar-to-ei, para que saboreies muito do que lá está.

Passá-lo-ás depois ao Cruz Santos, a quem Deus e Mercúrio dêem vida e saúde e dinheiro.

Afectuosas lembranças da Mécia.

E o grande abraço muito amigo do

Jorge”

In JL de 9 a 22 de novembro de 2016

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/1978)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

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