António Ladeira – Pensar no Medo – “Ao Al Berto”

Ao Al Berto

Penso num sonho que tive quando era criança.

Ia pelos campos inundados,
de mãos dadas a uma pessoa que esqueci.

Ver é fácil.

Ver é estarmos só no campo
ou, então, felizes e sentados em cadeiras.

Desistem de morrer os animais nas cercas.
Olham para nós pensando atentamente.

(Estamos vivos!)

Estremece a água com a aguda inteligência
de um insecto.

Matinalmente,
as crianças vão para a escola dentro de uma nuvem
minúscula.

Fim da discórdia entre os anjos das grutas.

É o princípio do dia.

Um homem feio veste um grande fato,
abre a porta de uma casa.

Examina, bocejando, as duas mãos.

Dança no largo, no meio de toda a gente,
um macaco.

Sons de cozinha no céu.
Um cão vê passar um réptil
e dá um pequeno grito humo.

No mar um belo peixe
vê nadar um belo peixe,
pela primeira vez.

LADEIRA, António,  A minha cor favorita é a neve

 

António Ladeira (Almada, 1969)
Poeta, contista, ensaísta, tradutor, colaborador em diversas publicações, letrista de jazz, licenciado em Estudos Portugueses, doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas, professor catedrático.

 

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