Natércia Freire – Senhora Dona Burguesa

Natércia Freire

Senhora Dona Burguesa,
Dentro da sala fiando,
Com olheiras de tristeza,
Fia o sonho e vai sonhando.

Cantam pássaros na tarde.
Senhora Dona Burguesa
Recolheu as mãos e arde
Na romântica tristeza
De ouvir pássaros na tarde.

Já espreitou da velha torre
Campos e montes de Espanha.
Disse à nuvem: – Corre, corre,
Conta o mal que me acompanha.
De nada serve espreitar
Campos e montes de Espanha…

O silêncio envolve tudo:
Compõe teus olhos, Senhora.
Touca e manto de veludo,
Longos dedos cor de aurora.

Voz débil, de flor cansada,
No esquecimento da vida.
Dona Senhora do Nada,
Nas sombras adormecida.

Vieram carros buscar
Senhora Dona Burguesa,
Para a levar a passear.
A Senhora estava presa,
Imóvel, no seu lugar. . .

Já correra o mundo todo
Com olhos de navegar.
Enterrara-se no lodo,
E um anjo a fora salvar.

Depois subira às ameias,
De mãos atadas e nua.
– Altura? Brumas? Areias!
Deitem-na, morta, às areias.
Não há mais cópias de lua!

Senhora Dona Burguesa
Ouvia o Anjo falar,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar. . .

Enfeitara-se o coreto;
Logo à volta houvera danças.
Senhora Dona Burguesa
Levara vestido preto
E laços pretos nas tranças.

Levara vestido justo,
Justo no seio e nas ancas;
Vestido preto a acabar
No branco das pernas brancas.

Todos a viram calçada
Com ar de sonho e vigília.
Todos a viram sentada
Por entre a sua família.
Todos a viram modesta,
Sorridente e sossegada…

Senhora Dona Burguesa
Andou descalça na festa
E foi por todos pisada.

Quando a deitaram na cama,
Ninguém viu que se morria.
Tinha os cabelos em chama,
E à chama, ninguém a via. . .

Enfeitaram mais coretos,
Houve mais cantos e danças.
Mulheres vestidas de preto,
Com laços pretos nas tranças,
Endoideceram o espaço
De saudade e ventania,
De cantigas, de cansaço,
De pecado e de alegria. . .
(Senhora Dona Burguesa
No escuro se repetia…)

Quando viram que era morta,
Teve que ir a enterrar.
Não é preciso trazer
Carros para a passear.
Não subirá torres altas,
Para delas espreitar
Campos e montes de Espanha,
Brumas, areias do mar…

Não deverá ter impérios
Quem deles não sabe usar.
Só terá vestidos pretos
Para neles se amortalhar.

Senhora Dona Burguesa,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar.

Senhora Dona Burguesa
Sem história para contar!…

Natércia Freire (Benavente, 28/10/1920 – Lisboa, Dezembro de 2004)
Poetisa, prosadora, colaboradora em diversas publicações, conferencista, compositora musical, professora do ensino primário.

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