Maria Assunção Vilhena – Em Sines, “A Banhos” (Continuação)

“Iam para a praia ao romper do dia e tomavam logo banho com qualquer peça de roupa interior: as mulheres com a camisa de paninho branco com refegos e bordados, até ao joelho, e os homens com ceroulas de riscado ou de pano cru com nastros atados nos tornozelos e camisola com mangas.

Quando saíam da água, tiritando de frio e com a roupa colada ao corpo, corria logo alguém da família em seu socorro, levando-lhes uma toalha que de nada servia, porque primeiro tinham de os ajudar a despir a roupa encharcada, o que era o cabo dos trabalhos.

Acudiam então mais familiares com mantas com que faziam uma espécie de barraca que encobria a vítima até ao pescoço e dentro da qual ela se debatia contra os trapos molhados a coberto dos olhares indiscretos dos curiosos…

Era então que a toalha tinha utilidade, embora o corpo húmido demorasse a manobra de vestir.

Acabado esse trabalho, ainda batendo o queixo de frio, enrolavam-se nas mantas e toca a subir a encosta a caminha da vila, sem terem sequer apanhado uns raiozinhos de sol…

Havia outros que, certamente por causa do reumatismo, tomavam banhos quentes no edifício próprio* e, bem agasalhados com capotes ou mantas alentejanas, engrossavam a procissão de banhistas, que era uma espectáculo digno de ser visto…”

(…)**

E foi porque meu pai continuou a ter trabalho no transporte do peixe durante alguns Verões que continuámos a ir a banhos.

Ocupávamos sempre a mesma casa e tínhamos sempre os mesmos vizinhos; até os banhistas eram os mesmos e assim fizémos grandes amizades.

De ano para ano, no entanto, notavam-se algumas diferenças – as crianças cresciam, os pais e avós envelheciam e, na praia, tudo se foi modificando: as barracas e toldos, mais banhistas que se conservavam mais tempo na praia e tomavam novos hábitos.

Era sobretudo ao domingo que ia mais gente. Os do monte levavam grandes farnéis que estendiam sobre toalhas brancas muito esticadas na areia e passavam lá o dia, à sombra dos toldos.

Geralmente aparecia um fotógrafo com uma máquina de fole sobre um tripé e uma cortina preta onde metia várias vezes a cabeça, o que muito nos intrigava. Talvez por isso, nas fotografias que a minha mãe nos mandava tirar ficávamos sempre com cara de ponto de interrogação…”

 * Imagem legendada publicada em 2008/08/07 com o título: “Sines, Banhos Quentes”

**  Pode ler-se: “Sines, o Banho de 29” publicado em 2009/08/29

VILHENA, M. Assunção, Gente do Monte

Maria Assunção Vilhena (Santiago de Cacém)
Concluiu o Curso de Professora do Ensino Primário em 1948, posteriormente licenciou-se em Filologia Românica e lecionou Francês na sua terra natal.
Dedicou-se ao estudo da Etnologia da Beira-Baixa e editou obras neste âmbito.

 

 

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