Ary dos Santos – O Turismo

Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto
A bola e a bolota
O que é como quem diz
itinerar a derrota

Tudo tem lugar no mapa
Paris, Washington, Moscovo
Em Itália vê-se o Papa
Em Lisboa vê-se o povo.

Welcome, Bienvenus,
Salud, Willkommen, Viva
A sífilis saúda-vos
saúda-vos a estiva
desta carga de heróis
em carne viva
nociva mas barata
vindes matar a sede com uva
beber o sumo de ócio
que nos mata

Desemborcais nos cais
Desembolsais de mais
mas não sabeis
as coisas viscerais
as coisas principais
deste país azul
com mais hotéis do que hospitais
talvez por ser ao sol
talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar
bordamos a tristeza
as toalhas de mão
as toalhas de mesa
que levais para casa
Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio
gememos a saudade
nosso fado submisso
nossa água a correr.
Canção de mal devir
Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento
forjamos o lamento
dum país que se vende
a peso nos prospectos
tanto de sol ardente
tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu
nos xailes pretos.

Aqui ao pé do fel
gritamos o segredo
do que parece fácil
neste país de luz:
é apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7/12/1937 – Lisboa, 18/1/1984)
Poeta, declamador, autor de poemas para canções, animador político, profissional de publicidade.

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