Archive for Abril, 2017

Al Berto – “Aperto a Mão…”
Abril 30, 2017

VII

“(…)

… aperto a mão ao despedir-me
digo mudos olhares aos que ficam na casa a definhar
sobe a algazarra dos homens lá fora
a camioneta da carreira passou à porta da taberna sem parar
… não trazia nenhum passageiro…”

AL BERTO, Trabalhos do Olhar 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948-Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Anúncios

António Mega Ferreira – A Al Berto, Da Última Vez Que O Vi
Abril 30, 2017

1

A planta baixa dos teus pés
errando sobre a praia;
o nevoeiro triste sobre as águas;
as memórias encobertas de sol,
o teu cachecol comprido, branco,
tecido com os cabelos louros
com que incendiaste o Quartier,
numa noite de Novembro,
vai para dez anos.

A métrica forçada, forçosa,
da toada
em que recordo os teus olhos
vivos,
o barrete de lá, depois,
a tua voz tão firme, ainda,
por fim desfalecendo em água.
E ainda, assim-assim, a mão de cigarro
pendurada,
a tua última
voz, a última vez,
o coração, talvez
alguma coisa que me querias
dizer, não sei, não houve tempo –
o barrete de lã na espuma
das praias?

2

Quando um de nós partir
havemos de cantar
um do outro a voz
(mas os poetas só cantam
com a sua própria voz);
havemos, um de nós, do outro
recordar
a tua voz tão firme
na última noite
em que te ouvi –
crateras e praias –
o teu corpo do mundo
despedido
a sombra de um pássaro
imóvel
sobre a miséria da luz
na noite irremediável.

De mim não sabes
metade
do que então te dei:
o olhar persistente,
o calafrio nos lábios,
um punhal em Sines
com a pequena baía
a arder de barcos.
Da última vez
olhámo-nos sem esperança:
condenados a partir
espiamos, um do outro,
a fala, alguma
inquieta ruga que nos diga,
no outro, quem, de nós,
há-de ficar,
para cantar do outro a voz
ou a sua própria
(entre mágoas e êxtases
algo de nós –
ou nada –
haverá que conste).

FERREIRA, António Mega, O Tempo Que Nos Cabe

António Mega Ferreira (Lisboa, 25/3/1949)
Romancista, ensaísta, poeta, jornalista, licenciado em Direito.

Ana Paula Bastos – Escrevemos Cartas
Abril 30, 2017

Escrevemos cartas de amor

Personalizadas

Ilustradas

Perfumadas

Não para darmos ou sabermos notícias…

Não para contarmos coisas novas…

Mas apenas para que as nossas mãos toquem as do outro

Ao tocarmos a mesma folha

Do papel da carta enviada…

 

BASTOS, Ana Paula, Doce Amor… Meu Arco-Íris

 

Ana Paulo Bastos (Portimão, 1955)
Professora de Educação Moral e Religiosa Católica, Formadora de Teologia, Fisioterapeuta, Mestre em Ciências da Educação.

Altino Tojal – “A Bengala!”
Abril 27, 2017

 

“Hoje, 26 de Julho de 1989 – dia do meu quinquagésimo aniversário -, barbeio-me a preceito, acendo o cachimbo e saio para a rua, floreteando a bengala.

A bengala?! – estranhará quem me conhece. A bengala! – digo-vos eu. Foi ao fazer a barba, ao ver no espelho, fitando-me, esta cara de meio século em ponto, que me ocorreu pagar na bengala encastoada de prata que pertencera a meu falecido avô e dar com ela um giro pelo exterior.

É simplesmente espantoso que a conserve desde rapazinho, que ela não se extraviasse ao longo da minha acidentada existência, que eu tenha resistido a vendê-la nos dias negros de penúria!  Claro que nunca a usei, guardei-a como uma relíquia.

Confesso que me sinto um pouco ridículo elo expor-me publicamente de bengala; ridículo e desajeitado. Passear de bengala tem os seus quês e se vos disser, por exemplo, que acabo agora mesmo de tropeçar nela, não minto.

Falta-me também o estilo de meu avô!, a sua desenvoltura, o seu garbo aristocrático.

Aqui vou eu com a bengala, avô! Que tal?… Se existe outra vida e se tu me espreitas por detrás duma nuvem, fumando o teu cigarrito, aposto que até te engasgas de riso, esdrúxula criatuta! (…)”

TOJAL, Altino do, Os Putos, Pórtico.

Altino do Tojal (Braga,26/7/1939)
Jornalista, ficcionista e tradutor.

Ana Mafalda Leite – Cordões Pequenos de Estranha Luz
Abril 27, 2017

 

em memória de ti, querida Helena

 

encontrou-a nessa noite desfigurada acesa numa fotografia

antiga

tinha esse sorriso esse modo ternurento e malicioso dentro dos

seus olhos

agarrando-se às pálpebras o peso das pestanas crescendo

crescendo como laços ou fitas transparentes cordões

pequeninos de estranha luz

 

tão próxima estava assim voltada

para o outro rosto de si para perto da espuma e do sal

no silêncio da agua morna e das aves côncavas

 

estranho pressentimento naquela noite as fotografias ardendo

pássaros subindo no fumo fonte atenuada da memória

desfazendo-se pelo espaço

 

Ana Mafalda Leite (Lisboa, 23/08/56)
Poetisa luso-moçambicana, ensaísta, tradutora, investigadora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora catedrática – brilhante, posso afirmar!

Albano Martins – Autobiografia Breve (continuação)
Abril 27, 2017

 

“E há os tempos de Mafra, a frequência do curso d oficiais milicianos, nas marchas forçadas na Tapada, com todo o equipamento às costas (…)

De Évora e do Regimento de Infantaria 16 onde, após a recruta, fora colocado como aspirante a oficial, guardo a memória de pelotão sob a minha responsabilidade (…)

Castelo Branco é outra das minhas cidades carismáticas. No liceu, onde, no ano lectivo de 1957/58, fui colocado como professor de serviço eventual (com despedimento garantido no termo do ano lectivo e, por isso, sem direito a vencimento durante as férias), encontrei aquela que, nesse mesmo ano, se tornaria, até hoje, a minha mulher: a Kay.

E em Viseu, dois anos depois, nasceria a Isabel, a nossa única filha – uma estrela, como lhe chamo numa pequena história infantil que recentemente escrevi. (…)

Em 61 (…) frequentava no antigo Liceu D. Manuel II (…), do Porto, o estágio pedagógico para o magistério liceal, que, uma vez terminado, havia de levar-me a Angra do Heroísmo, onde fora colocado como professor efectivo.

Dez meses depois, na sequência dum concurso, estava em Évora (outra vez o Alentejo, com o seu sortilégio mourisco e suas rubras papoilas!), onde, ao transferir-se para o Liceu Camões, de Lisboa, Vergílio Ferreira deixara uma vaga do 1.º grupo.

Ali tive como colegas, entre outros, o Manuel Patrício e o Fernando J.B. Martinho, com quem viria a fundar uma efémera colecção de poesia que, ao modo grego, baptizámos com o nome “Daimon”. O primeiro número da colecção seria Coração de bússola, o meu segundo livro que, assim comemora (comemorou há pouco) 40 anos de idade.

Em Outubro de 69, um novo concurso transferia-me de Évora paraVila Nova de Gaia, a cidade do rei Ramiro, vizinha do Porto. Foi há 39 anos. (…)”

In “Autobiografia”,  JL de 16 – 19 Janeiro 2008

(continua)

Albano Martins (Telhado, Fundão, 6/8/1930)
Poeta, um dos fundadores da revista Árvore, colaborador de publicações, professor universitário, licenciado em Filologia Clássica.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, S. Tomé e Príncipe – Francisco José Tenreiro – Negro de Todo o Mundo  
Abril 23, 2017

 

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.

Harlém! Harlém!

América!

Nas ruas de Harlém
os negros trocam a vida por navalhas!

América!

Nas ruas de Harlém
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.

Harlém!

Bairro negro!

Ringue da vida!

 

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando…

Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

Em Lisboa?
Na América?
No Rio?
Sabe-se lá!…

 

— Escuta.
É a Morna…

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

 

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.

Folies-Bergères.

Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.

Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens…

Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!

 

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!

 

Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!

Baía…
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai Santo.

Oraxilá! Oraxilá!

 

Francisco José Tenreiro (São Tomé, 1921-1963)
Poeta, ensaísta, contista, colaborador de diversas publicações Integrou a Casa dos Estudantes do Império, co-fundador do Centro de Estudos Africanos, professor universitário, doutorado em Ciências Geográficas (FLUL) e em Ciências Sociais (Inglaterra,1961).

Mário Dionísio – Utilidade
Abril 23, 2017

 

Só as mãos que se estendem para a frente interessam.

Só os olhos que vêem para além do que se vê,

só o que vai para o que vem depois,

só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,

só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca,
[será nossa,
interessa.

 

Mário Dionísio (Lisboa, 16/7/1916 – Lisboa, 17/11/1993)
Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, professor universitário.

Grupos Naturais – Dar Ares de / Dar Arrelias / Dar as Boas Festas (ou as boas-noites, as boas-vindas) / Dar as Cartas / Dar às Gâmbias / Dar as Horas / Dar as Mãos 
Abril 23, 2017

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar ares de – parecer-se um pouco.

Ex.: O Filipe uns ares do irmão.

 

Dar arrelias – aborrecer.

Ex.: O Mauro muitas arrelias à mãe.

Dar as Boas Festas (ou as boas-noites, as boas-vindas) – saudar.

Ex.: Não lhe escreves a dar as Boas Festas?

Antes de te deitares, dá as boas-noites ao avô.

Quando o vir, vou dar-lhe as boas-vindas.

 

Dar as cartas – pôr e dispor; distribuir cartas pelos jogadores.

Ex.: Nas reuniões, quem dá as cartas é a Júlia.

Agora és tu a dar as cartas.

 

Dar às gâmbias – dançar.

 Ex.: O João deu às gâmbias no baile da Paróquia.

 

Dar as horas – dar as badaladas.

 Ex.: O relógio da torre dá as horas adiantadas.

Dar as mãos – unir-se, juntar esforços; apertar as mãos.

  Ex.: Os verdadeiros amigos dão as mãos nas horas difíceis

          As amigas deram as mãos e abraçaram-se.

(continua)

Marquesa de Alorna – “Como Está Sereno o Céu”
Abril 23, 2017

 

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a Lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

 

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (Lisboa, 31/10/ 1750 – Lisboa,  11/10/ 1839)
Conhecida por “Alcipe”, nome que adoptou na Arcádia.
Poetisa, escreveu sobre literatura, sociedade e política, traduziu a Arte Poética de Horácio e o Ensaio sobre a Crítica de Pope.