Maria do Rosário Pedreira – “Lembrava-me dele e, por amor…”

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a
[alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez
[mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um en
[gano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, pu-
[nha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

 

Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959)
Poetisa, romancista, ensaísta, cronista, autora de literatura juvenil, editora, tradutora, professora, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas.

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