Maria Teresa Horta – Carta Última para Maria Isabel Barreno (1.ª Parte)

“Escrevo, Isabel,
carta última,
tal como fizemos ao terminar
Novas Cartas Portuguesas, num
recolhimento que repito, num
impulso, num sobressalto diante
do fim da tua vida; pois escrever
junto, à nossa maneira a três,
Isabel
é pacto de sangue – corte muito
fino no pulso da escrita – lembro-me
de vos ter dito diante do vosso silêncio
cúmplice. E este é o meu modo de-
sarmado de recusar a tua perda, creio,
sem conseguir aceitar que passes a
ser sobretudo memória, por certo
cada vez mais longínqua, recordação
dia após dia a tornar-se brumosa,
distanciada e difusa.
Saudade a resguardar-se de si
própria.
Tão sozinha, tu no abandono de ti
mesma, em inexistentes horas, sem
outra qualquer forma de existires
senão pelo teu lado de total negrume,
aquele que absurdamente é hoje o teu
nada
mais absoluto.

Escrevo, Isabel,
carta última
a querer recordar como se deu o
exato começo de Novas Cartas, por
entre palavras e ideais, exigência de
liberdade e repúdio dos tantos medos,
modos e meios que o fascismo tinha
de nos censurar a escrita, ideias e
princípios, livros, itinerários, projetos
literários, romances e poesia, textos e
versos no seu próprio reverso de luz;
e igualmente na ensombrada som-
bra, então, dos nossos dias.

Escrevo, Isabel,
carta última
como se ainda fôssemos tateando
devagar a vida, repensando as tantas
diferenças de escrita, a tentarmos
divisar essa outra diversidade,
feminina
tão ancestral quanto castrada,
abafada e discriminada,
Isabel…
E assim foi nessa pressa, nesse
entusiasmo, que ao longo de meses
nos tornámos amigas, quer num so-
bressalto súbito de tropel e inesperada
corrida ao modo do meu alvoroço,
quer da tua quietude, tranquilidade
à flor do sorriso, como se afinal nada
nos estivesse a acontecer,
ilusória maneira de tomarmos voo
de asa enquanto companheiras em
convivência de vida e escrita, por entre
agressões, tentativas de humilhação e
de proibições políticas.
Na realidade falávamos de liber-
dade e de literatura ao longo de tardes
fingidoras de tempo que simulava
deixar-se agarrar, numa mistura de
conversas que sempre se demoravam
em cumplicidades múltiplos, por en-
tre páginas, obras literárias sobretudo
de autoras de quem amávamos a
poesia, a ficção, a filosofia,
conscientes de ser urgente deso-
bedecer, transgredir, aprendendo
a confrontarmos quem nos queria
censurar a vida e a escrita.

Escrevo, Isabel,
carta última
sem tentar iludir certezas e dúvi-
das, em horas de descoberta e rompi-
mentos; enquanto íamos imaginando
e escrevendo,
contos e poemas, ensaios e versos,
cartas…
Tantas cartas, e tantas personagens,
Marias, Mainas e Marianas…
com as quais fizemos uma roda,
juntas na escrita de um livro que em
quase tudo acabaria por mudar para
sempre as nossas vidas. (…)”

In JL, 14 a 27 de setembro de 2016

(continua)

 

Nota: Faz hoje sete mês que Maria Isabel Barreno faleceu.

 

Maria Teresa Horta (Lisboa, 20/5/1937)
Poetisa, colaboradora de diversos jornais e revistas, pertenceu ao grupo Poesia 61 e aos movimentos cineclubista e feminista, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”.

 

Maria Isabel Barreno (Lisboa, 10/7/1939 – 03/09/2016)
Romancista, novelista, contista, ensaísta, autora de trabalhos sociológicos e de guiões para a televisão e cinema, colaboradora de jornais e revistas, integrou o Movimento Feminista de Portugal com as escritoras: Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com as quais é co-autora de: Novas Cartas Portuguesas, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas.

 

Maria Velho da Costa (Lisboa, 26/6/1938)
Romancista, contista, ensaísta, galardoada com vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2002, co-autora do livro: Novas Cartas Portuguesas (1972) com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, tendo ficado conhecidas internacionalmente por: “As Três Marias”, licenciada em Filologia Germânica, professora do ensino secundário.

 

 

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