José Régio – Baptismo

 

A António Botto

Foi numa tarde, há muito!, em que eu morria
Como num sonho ansiosamente vago.
Via nuvens fugindo sobre um lago,
Lá num deserto onde o luar nascia.

Morria a ouvir nem sei que melodia
Fluir da flauta de não sei que mago…
e uma figura erguia-se do lago,
Vinha, mordia-me no peito…, e ardia.

A  minha mãe que estava ao lado, quieta,
Eu dizia: – “Mamã, quero ser poeta!”
E consumia-a num abraço estreito.

… De noite, ergueram-se uivos do horizonte.
E eu sentia correr, como uma fonte,
A chaga que se abrira no meu peito!

RÉGIO, José,  Não Vou Por AÍ

 

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica.

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