Altino Tojal – “A Bengala!”

 

“Hoje, 26 de Julho de 1989 – dia do meu quinquagésimo aniversário -, barbeio-me a preceito, acendo o cachimbo e saio para a rua, floreteando a bengala.

A bengala?! – estranhará quem me conhece. A bengala! – digo-vos eu. Foi ao fazer a barba, ao ver no espelho, fitando-me, esta cara de meio século em ponto, que me ocorreu pagar na bengala encastoada de prata que pertencera a meu falecido avô e dar com ela um giro pelo exterior.

É simplesmente espantoso que a conserve desde rapazinho, que ela não se extraviasse ao longo da minha acidentada existência, que eu tenha resistido a vendê-la nos dias negros de penúria!  Claro que nunca a usei, guardei-a como uma relíquia.

Confesso que me sinto um pouco ridículo elo expor-me publicamente de bengala; ridículo e desajeitado. Passear de bengala tem os seus quês e se vos disser, por exemplo, que acabo agora mesmo de tropeçar nela, não minto.

Falta-me também o estilo de meu avô!, a sua desenvoltura, o seu garbo aristocrático.

Aqui vou eu com a bengala, avô! Que tal?… Se existe outra vida e se tu me espreitas por detrás duma nuvem, fumando o teu cigarrito, aposto que até te engasgas de riso, esdrúxula criatuta! (…)”

TOJAL, Altino do, Os Putos, Pórtico.

Altino do Tojal (Braga,26/7/1939)
Jornalista, ficcionista e tradutor.

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