Florbela Espanca – Às Mães de Portugal

Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas!

Calai as vossas mágoas, vossas dores;
Longe na crua guerra,
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!

E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães, porque chorais?!

Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A Alma Portuguesa!

Pela terra de estrela e tomilhos,
De sol, e luar,
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!

Dum português bendito, sem igual,
Eu sigo o mesmo trilho:
“Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!”

Por isso, ó mãe doloridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!

A Pátria rouba os filhos, mas é mãe,
A mãe de todos nós.
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães, nem sequer vós!

ESPANCA, Florbela, Cartas

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

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