Augusto Gil – Canção da Mãe

 

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o Sol, nasceu a Lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?…

Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade também,
Que ao redor donde tu andes
Não fique pobre  ninguém.

Que a todos chegue a ventura;
Toda a boca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor consolação…

Mas, se o oiro é mau caminho,
– Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azuis como os céus…
Que onde há frutos e onde há fontes
– Está a mesa de Deus!

E quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir…
(Aceitar o que nos derem).

Andaremos à mercê
Dos génios bons e dos falsos,
Léguas e léguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços…

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos,
– Passsarás por cima dele!

 

Augusto Gil (Lordelo do Ouro, 31/7/1873 – Guarda, 26/11/1929)
Poeta, colaborador de jornais, advogado, director-geral das Belas-Artes.

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