Archive for Junho, 2017

Cesário Verde – Cristalizações
Junho 28, 2017

A Bettencourt Rodrigues, meu amigo.

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócaras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos, com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra – que união sonora! –
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros , baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos. Voam-lhe [sic] estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes
Que ferem lume sobre pederneiras.

E neste rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás…

Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente!
Carros de mão que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais; enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto que eu diria
Ter ante mim lágoas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto,
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custisa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desmboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite, na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

VERDE, Cesário, O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde (Lisboa, 25/2/1855 – Lumiar, 19/7/1886)
Poeta, estudante do curso Superior de Letras.

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Castro Alves – A violeta
Junho 28, 2017

(A uma incógnita…)


A ROSA vermelha
Semelha
Beleza de moça vaidosa, indiscreta.
As rosas são virgens
Que em doudas vertigens
Palpitam,
Se agitam
E murcham das salas na febre inquieta.

Mas ai! Quem não sonha num trêmulo anseio
Prendê-las no seio
Saudoso o Poeta.

Camélias fulgentes,
Nitentes,
Bem como o alabastro de estátua quieta…
Primor… sem aroma!

Partida redoma!
Tesouro
Sem ouro!
Que valem sorrisos em boca indiscreta?

Perdida! Não sonha num tremulo anseio
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta

Bem longe da festa
Modesta
Prodígios de aroma guardando discreta
Existe da sombra,
Na lânguida alfombra,
Medrosa,
Mimosa,
Dos anjos errantes a flor predileta

Silêncio! Consintam que em trêmulo anseio
Prendendo-a no seio
Suspire o Poeta.

Ó Filha dos ermos
Sem temos!
O casta, suave, serena Violeta
Tu és entre as flores
A flor dos amores
Que em magos
Afagos
Acalma os martírios de uma alma inquieta.

Por isso é que sonha num trêmulo anseio,
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta! …

 

Castro Alves (Curralinho, 14/3/1847 – Salvador, 6/7/1871)
Poeta, conhecido pelo “Poeta dos Escravos”.

António Carlos Cortez – Poesia
Junho 28, 2017

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças

 

António Carlos Cortez (Lisboa, 1976)
Poeta, crítico literário, ensaísta, colaborador de diversas publicações, professor de Literatura Portuguesa e Português.

António Cândido – VII
Junho 28, 2017

 

Ao céu regresso.
Quero dizer
à terra anoitecida
pelo amor.
Extasio-me
com a terrestre vida dos astros.
Passeio
por uma estrada de estrelas.
Isto é
uma estrada de flores sublimadas
pela noite.
Vou visitar um estábulo
em pleno universo.
Zodíaco.
Jardim zoológico astral.
Lá estão as constelações
irradiando o seu frio.
Quero dizer
os animais pela memória
desterrados.
Regresso à noite.
Piso a escuridão.
Olho o céu
como se a terra visse.
As estrelas são flores.
As constelações são animais.
O céu é um jardim
com um estábulo no meio.
Comem flores os animais da terra.
Mastigam estrelas os do céu.
O céu também é um chão
mas um chão feito de memória.
Estão lá os mitos.
Isto é
homens elevados
pela luz e pela palavra.
Pisam-se lá em cima astros
como em baixo
se pisam pedras.
No céu passo por mitos
e por ideias.
Estão lá poemas.
Quero dizer
coisas metaforizadas
por esta outra noite do mundo
íntima e secreta
que são as palavras.

António Cândido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24/7/1918-12/05/2017)
Poeta, ensaísta, distinguido com o Prémio Camões em 1998, professor universitário.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Luiz Tavares – Lembrança de Manuel Bandeira num Outono de Lisboa
Junho 25, 2017

“Meus pedestres semelhantes”,
escreveste; mas eu, baleeiro da fome
sob a unção do frio,
tão aéreo cicerone me fizeram
estes claros dias de outubro.

Um tostão de azul (coisa pouca
apenas p´ra com sul rimar)
nos tetos frios do outono
ao mais triste de mim
leva a trémula consolação da cor.

Nos pátios caligráficos, ruivos amores
reinvento (hermeneuta sou dos segredos
que soterra o tempo) e virentes acenos
à pura noiva imaginada.

Real, porém, a mulher longeva
vendendo hortaliças
na viela fagulhante de turistas.
(Eu também já estive pelas suíças,
mas a apanhar morangos e castiças).

E vendo assim Lisboa (so beautiful)
assalta-me a lembrança de um outro azul
— sob suas fímbrias plantei
renques de acácias e tabuletas alusivas;
sob seus desdoirados ramos
desamores lamentei,
que não sou amigo do rei,
nem cheganças com deuses hei.

Mas se é de sua lei
que, embora triste, seja altivo amigo
da grei, tal sina não maldigo;
talvez mesmo comigo diga:
grato estou a estes claros dias
em que das lágrimas fiz maravilhas.

 

José Luiz Tavares (Tarrafal, IIha de Santiago, 10/6/1967)
Poeta, recebeu o Prémio Mário António de Poesia 2004 com a publicação do seu primeiro livro, e o Prêmio Jorge Barbosa 2005 com a sua segunda obra,  é o vencedor do Prémio BCA de Literatura 2016,  colaborador com jornais e revistas de Cabo Verde, Portugal e Brasil,  e tradutor, estudou literatura e filosofia.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Eduardo Agualusa – Tempo das Chuvas
Junho 25, 2017

Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim

Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

AGUALUSA, José Eduardo,  O Coração dos Bosques

 

José Eduardo Agualusa (Huambo, Angola, 13/12/1960)
Romancista, contista, novelista, cronista, autor de literatura infantil, poeta, colaborador em jornais e revistas, galardoado com vários prémios literários.

José Augusto Seabra – Aqui Não Somos…
Junho 25, 2017

 

Ao Victor

 

Aqui não somos

mais do que o raso espaço que nos cerca, apetecível vôo para os olhos

e limitado gesto para as mãos.

Aqui não somos

menos que esforço e pausa de cansaço, pesado corpo de silêncio grave

e uma só hipótese de esperança.

 

Aqui não somos

senão soluços adiados, lágrimas

correndo impuras, secas e nos lábios

um último sorriso anunciado.

 

José Augusto Seabra (Vilarouco, 24/2/1937 – Vila Nova de Gaia, 27/5/2004)
Poeta, ensaísta, crítico, professor universitário, diplomata e político.

José-Alberto Marques – Sem Título 2
Junho 25, 2017

 

Fechar um livro

após se ler

é arrumar o peso do tempo

no alto dum antigo muro

fechar os olhos

e meter os ombros

no largo do futuro.

 

MARQUES, José-Alberto, A Gramática a Rimar

José-Alberto Marques (Torres Novas, 4/10/1939)
Poeta, romancista, autor de literatura infanto-juvenil e de textos de crítica literária, colaborador em publicações, orientador pedagógico de Português.

José Alcides Pinto – Poema
Junho 25, 2017

 

Teu riso limitado

claro como o canto

e vivo como o olho.

Teu mundo recluso

entre objetos tristes

de uso particular, doméstico.

Uma xícara, urna toalha, um verso

tocado por teus dedos sensíveis.

Teu lento morrer

na fruta à mesa

que não te atreves.

Teu pobre dia

tão curto e longo

que desconheço

 

José Alcides Pinto (S. Francisco do Estreito, 10/9/1923 – Fortaleza, 2/6/2008)
Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, crítico literário, jornalista e professor universitário.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – José Luandino Vieira – Girassóis
Junho 25, 2017

 

Tem girassóis amarelos

o meu quadrado de sol

 

a vida espancada passa

mas no quadrado de sol

aberto sobre o jardim

os girassóis amarelos

velhos

mostram o fim

 

(1962])

 

José Luandino Vieira (Vila Nova de Ourém, 4/5/1935)
Pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça. Fixou-se em Angola aos três anos.
Romancista, novelista, contista, poeta, galardoado com o Prémio Camões em 2006, colaborador jornalístico, tradutor.