Marly de Oliveira – XVI – À Mônica (aos três anos)

 

Um súbito silêncio enfreia a mágica

aventura de estar entre os objetos

que apenas reconhece. Ela adormece

a meus pés como um gato, um bicho quieto,

com doçura felina, suave e intensa,

recolhida em si mesma contra o frio

da noite. Ela me é, me dorme no seu sono,

desdobrada de mim, além de mim,

que a recebi sem entender, atenta

ao milagre de vida de que fui

receptáculo apenas, serva mansa,

e em tudo obediente à natureza.

Dorme a meus pés, e meu amor reinventa-se

vendo-a tão calma assim, tão sem defesa.

 

OLIVEIRA, Marly de,  De Contato (1975)

 

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1/6/2007)
Poetisa, professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana, esposa de João Cabral de Melo Neto, depois dele ter enviuvado.

 

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