Archive for Julho, 2017

Cora Coralina – Antiguidades
Julho 7, 2017

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada…
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
“Tomando propósito”.
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.

Não poupava as crianças.
Mas, as visitas…
– Valha-me Deus !…
As visitas…
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades…

Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita – alta, magrinha.
Lili – baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
“- Lili é a bengala de D. Benedita”.
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio…
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando “causos” infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
– ai de mim –
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.

 Cora Coralina (Cidade de Goiás, 20/08/ 1889 – Goiânia, 10/04/1985)
Pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
Poetisa e contista, foi a primeira mulher a ganhar o prémio Juca Pato (1983).
Começou a escrever aos 14 anos, mas só publicou o primeiro livro aos 75 anos.

Carlos Queirós – Anti-Soneto, Ao Mário Saa
Julho 7, 2017

 

O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
(Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio),
Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

QUEIRÓS, Carlos,  Cadernos de Poesia

Carlos Queirós (Lisboa, 5/4/1907 – Paris, 27/10/1949)
Poeta modernista, um dos grandes vultos da Revista Presença.

Mário Saa – Futurismo
Julho 7, 2017

 

“(…) Futurismo é regressar ao passado pelo desdém; desdenhar o existente em Arte, é regressar a si-mesmo, é regressar á inocência da Arte! Só o homem que se despe é egual áquele que se não vestia. (…)

Muitas singularidades que estão no génio não são senão contraste entre o povo a que pertence, e o povo no seio do qual isoladamente vive; é por esta razão que ninguém é profeta na sua terra. (…)”

 

In Uma Entrevista Célebre, Portugal Christão-Novo Ou Os Judeus na República, conduzida por Guilherme de Lencastre, Lisboa, 11/09/1921

 

Mário Saa (Caldas da Rainha, 18/6/1893 – Ervedal, 23/1/1971)
Poeta, colaborador em diversas publicações.

Ruben A. – Autobiografia
Julho 7, 2017

 

“Autobiografia é o encontro adulto com a própria personagem. è a primeira tentativa de definição. (…)

A minha autobiografia é a obrigação moral do meu próprio caso histórico, o testemunho da realidade enquadrado no real quotidiano (…) uma morte com vida, ama uma vida com morte.

Sabe o que isto é? Sabe o que isto dói? Parece-me terrível alguém, ou algum povo, autobiografar-se. Premência absoluta de radiografia para ver o que está e o que anda lá dentro.”

In JL, “Saudação a Ruben A.”, artigo de José Palla e Carmo, s/ data

 

Ruben A. (Lisboa, 26/05/1920 – Londres, 23/09/1975
Pseudónimo de: Ruben Alfredo Andresen Leitão
Romancista, ensaísta, crítico literário, historiador, autor de textos autobiográficos, professor do Ensino Técnico-Profissional, Liceal e Universitário,  conferencista,administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Sophia – Carta A Ruben A. 
Julho 4, 2017

Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando — pela última vez — bateste à porta da casa e te
[sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida

Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
— Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar — como oferta — a infância antiga

A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De rododendros délias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias

As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais

Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras

E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas

Desgarrada era a voz das primaveras

Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce

Junho de 1976

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner , Obra Poética II

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/11/1919 – Lisboa, 02/07/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o Prémio Camões (1999)

Grupos Naturais – Dar de Si / Dar em Cheio / Dar em Pantana / Dar Espectáculo / Dar Esperanças / Dar Esticão / Dar Folga
Julho 4, 2017

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

 

Dar de si (v. – pron. pes.) – ceder, abater.

Ex.: O soalho do salão deu de si.

 

 

Dar em cheio – acertar em tudo

Ex.: Deste em cheio com o teu plano.

 

 

Dar em pantana – arruinar-se.

Ex.: Com a sua falta de juízo, a firma deu em pantana.

 

Dar espectáculo – representar; provocar escândalo.

Ex.: O grupo de teatro deu dois espectáculos na terra do Gama.

A D. Barulheira dá espectáculo em todo o lado.

 

Dar esperanças – prometer.

Ex.: O director deu-lhe esperanças de vir a ser admitido.

 

Dar esticão – puxar com força.

Ex.: Ele deu um esticão à corda.

 

 

Dar folga – conceder feriado; manter espaço.

Ex.: O chefe deu folga à tarde.

Eles deram folga entre as madeiras.

(continua)

Literatura Africana de Expressão Portuguesa – Arménio Vieira – Caviar, Champanhe e Fantasia
Julho 1, 2017

A esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de janeiro de 1971
é uma hipótese de bomba termonuclear
de que não se calculou a ogiva
é o projeto de um foguetão apontado para a lua
que nunca chegou a partir
(ficou só o esboço da rampa
que não foi concluída)

A esplanada da Praia – mesmo em dia de sol e suão –
seria um oásis magnífico e fresco
se a nossa fé (que remove montanhas)
fosse um milésimo do grão de mostarda

E haveria café
sem que se fosse plantar um cafeeiro
na cabeça do gerente que entra e que sai
e à noite regista os proventos do dia

A esplanada teria um leite mais branco
e clientes catitas e empregadas bonitas
e baixaria para uma média razoável o número de pedintes
e caçadores de beatas
e haveria por certo uma clínica ali perto
e remédios para tudo (até para os males sem cura)

A esplanada teria um helicóptero para os poetas dilectos
e o chafariz ao lado não teria sacado

E haveria cisnes brancos a boiar todo o tempo
e até um jardim suspenso
com tulipas de estufa e girassóis

A esplanada teria aviões de jacto à distância de um braço
ali – no coreto da praça –
que só tem músicos de banda e bombo
a cinquenta mil-réis por semana

A esplanada teria um odor a DDT perfumado
e talvez uma catedral feita por Oscar Niemeyer
(tão diferente da igrejinha do lado
com suas quatro paredes quadradas
e uma cruz tão fora da moda)

A esplanada da Praia seria uma maravilha do mundo
por cuja abóboda cristalina e bordada
as estrelas chegariam coloridas até nós

A esplanada, por fim, teria outro nome
– Morabeza, sem dúvida, é um termo inventado
para ali estar como luva ou sapo imbecil
(estou mesmo a vê-lo, sobre o balcão, a turvar o aquário)

Pelo que ficou dito
e pelo que não –
talvez fosse oportuno morrer aqui e agora
em vez de comemorar minhas três décadas de vida
a sonhar com champanhe e caviar
na esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971.

Arménio Vieira (Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 29/1/1941)
Poeta, jornalista, primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, 2009.

Alexandre Herculano – A Graça
Julho 1, 2017

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!…

Alexandre Herculano (Lisboa, 28/3/1810 – Santarém, 13/9/1877)
Escritor, historiador, jornalista, poeta.