Archive for Julho, 2017

Clarice Lispector – O Nascimento do Prazer
Julho 31, 2017

 

“O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.

A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportável mente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é morte, é a vida incomensurável  que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode constituir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido.Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.”

 

LISPECTOR, Clarice, A Descoberta do Mundo

 

Clarice Lispector (Tchetchelnik, Ucrânia 10/12/1920 – Rio de Janeiro, 09/12/1977)
Contista, romancista, cronista, tradutora, jornalista, licenciada em Direito.

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Manuel Bandeira – Não Sei Dançar
Julho 31, 2017

 

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás…

Esta foi açafata…

– Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex- prefeito municipal:
Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil…
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!

A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Pra crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros…
Mas ela não sabe…
Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política…
Nem dos oito mil quilômetros de costa…
O algodão de Seridó é o melhor do mundo?… Que me
[importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilós-
[tomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

Petrópolis, 1925

 

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

Mário Cesariny – Ars Magna
Julho 31, 2017

Devo ter corredores por onde ninguém passe devo ter um mar próprio e olhos cintilantes

devo saber de cor o ceptro e a espada

devo estar sempre pronto para ser rei e lutar

devo ter descobertas privativas implicando viagens ao grande imprevisto

de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do teu peito o animal que inanimado canta

devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis

devo separar bem a alegria das lágrimas

fazer desaparecer e fazer que apareça

dia sim dia não

dia sim dia não

devo ter no meu quarto espelhos mais perfeitos técnicas mais sérias prestígios maiores

devo saber que és forte e amplo transparente e colher-te murmúrio flébil aureolado

que eu arranco da luz que encharca o mundo

dia sim dia não dia sim dia não

devo portar-me bem à saída do teatro

devo dar e tirar as chaves do universo

num passo ágil belo natural

e indiferente ao triunfo aos castigos aos medos

fitar unicamente, sob as luzes da cúpula, o voo tutelar da invisível armada

 

CESARINY, Mário, Manual de Prestidigitação

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

José Régio – Ámen
Julho 31, 2017

No circo cheio de luz
Há tanto que ver!…

“Senhores!”
— Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores —
Entrai, que não custa nada!”
À saída é que se paga…”

(E eu sou aquele palhaço
Com listras!, e estardalhaço,
Chamando público…)

Na arena,
Está toda a companhia.
E o público contracena
Com a arena,
Como a arena com o público,
Agonias de alegria…

Uma bailarina dança.

A bailarina que dança
Já correu França e Aragança
Dançando do mesmo modo
Com todo o seu corpo todo.
Mas sempre, de cada vez,
Seu pés,
Seus voláteis pés,
Tiveram diverso modo
De raptar da mesma forma
Seu corpo todo!

Os seus movimentos de hoje
São, talvez, iguais aos de ontem,
Aos olhos de quem não vê
Que o gesto feito uma vez
Já se não faz como fez.

Ai!, a vida!
E eu que ouvi que a vida é um dia!

Mas acaba e principia
A cada instante do dia…

(E eu também sou bailarino:
Também danço!;
Também não tenho descanso;
Também cá vivo fingindo
Que só vivo repetindo,
Muito embora
Saiba como a toda a hora
Vario e crio,
Ruo e fluo,
Como um rio…)

Na plateia, um homem bêbado
Tem olhos vítreos do vinho.
Seus olhos vítreos
Pegaram-se às pernas ágeis
Da bailarina.
Seu olhar que foi subindo
A foi despindo…
E ali a cara de todos
Aquele bêbado a goza,
Gemendo, arquejando, rindo…

… De tal modo,
Que, súbito, o circo todo
é um grande leito em festa, a receber
O espasmo daquele homem
Que possui essa mulher.

Que mentira e que verdade
Que é a vida!

(E eu sou, também, esse bêbado
Que a força de desejar
Transformou em realidade
O seu desejo.
Na verdade…,
Sim, na verdade, não vejo
Porque me não enganar…)

O acrobata, que belo,
Cinturado de amarelo!
Que belo
Ser acrobata!
Seu corpo é de oiro e de prata,
Com fogo e gelo a correr…
Pendurado do trapézio,
Crucificado no ar,
Causa angústia e faz prazer
Ver esse corpo bailar,
Voar
Entre a vida e a morte…
E é belo ser assim forte,
Ficando assim delicado.

Ora esse alado elegante
Que sorri com tal desplante
Tem, no entanto,
Há já tanto!,
Uma loucura com ele
Que o impele:
Quer subir
Até onde puder ir;
Além do que puder ir;
Mais e mais!
Seus belos saltos mortais
Desenham cada vez mais
Voos cada vez mais trágicos.
Até que ele há-de chegar
À tristíssima vitória
De não ter mais que avançar.

Então…,
Ele há-de, ainda, sorrir.
Ora verão!
E há-de deixar-se cair.

E há-de deixar-se cair,
Do sétimo céu ao chão.
Ai!, a vida!
Poema da Tentação…

(E eu sou aquele acrobata:
Não subi nem me exibi;
Não me tapei de amarelo,
Nem meu corpo é de oiro e prata,
Nem eu sou belo…
Tenho dó de não ser belo!
Mas sou aquele acrobata.)

Ri, palhaço!

O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo à multidão.

Ri, palhaço!

Corpo de borracha e aço,
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir!

Ri, palhaço!

Ri…, ri de ti para os outros,
Ri dos outros para ti,
Ri de ti para ti… ri!,
Ri dos outros para os outros…,
Ri, arre!, ri, irra!, ri!

Não!, que não!, que eu não lamente
Quem então, mesmo que o tente,
Não deixa de se exprimir
Tão brutalmente.

Palhaço, ri!

Eu não sei ter dó de ti:
Por miserável que seja,
Não se tem dó do que é belo.

(… Porque,
Será preciso dizê-lo?,
Também sou esse palhaço
Feito de borracha
E aço…)

Ai!, a vida!
Que trambolhões na subida,
Que ascenções pela descida…!

Entre os mil espectadores,
Encolhido,
Pequenino,
— Meu menino, ino, ino… —
Sim, fixo aquele menino.

Seus olhos, duas estrelas,
Acesinhos como velas
E maiores
Que os dos mais espectadores,
São de Menino Jesus
Que dá lição aos doutores.

Esses olhos fazem luz
Sobre todo o circo… São
Duas varas de condão.

Eis como, a luz que eles dão,
Tudo, em redor, se enriquece
De outra significação:

Que linda história de fadas
Se não vai desenrolando!,
Com princesas encantadas
Desencantadas,
E jovens reis escalando
Que muralhas invencíveis
Ao ritmo de árias terríveis,
Enquanto um príncipe excêntrico
Engole espadas e chamas,
Vem divertir o seu povo,
Trava prélios
Com dragões,
Gigantes,
Bruxas,
Anões,
—Criações
Dum mundo novo…

Ai!, a vida!
Maravilhosa historieta!

(E eu sou aquele menino:
Sou poeta…)

Mas em frente,
Do outro lado da arena,
Certa cara mascarada
Foca a cena:
Mascarada de silêncio,
De serenidade e enigma.

Bailados e acrobacias,
Amazonas e corcéis,
Músicas, luzes, e cores,
— Não me parecem que existam
Naqueles ouvidos surdos
E naqueles olhos foscos
De lágrimas,
Sangue,
Suores…

Quem é que ali sabe a história
Destes olhos esvaziados.
Dessa testa de sepulcro,
Daqueles lábios selados?

Por que está ali essa máscara,
Sozinha na multidão,
Fechada no seu caixão
De solidão e silêncio?…

E ai, minha mãe e meu pai!,
Todos que me quereis… ai
Que eu sou também, afinal,
Todo esse frio mortal…!

… Porque eu sou tudo!, — afinal.

E, mais do que bailarino,
Clown, acrobata, menino,
Bêbado ou esfinge, sou
A terra,
O chão que eles pisam,
E o pó que sobe e os envolve…
Moro lá em baixo, enterrado,
Muito lá em baixo!, e calado.
Pairo por cima ondulando,
Ando
No ar
Espalhado…

Ai!, a vida!

Que a vida não tem limites,
E quem vive não tem paz,
Menino, por mais que sonhes!,
Por mais que desejes, bêbado!,
Palhaço, por mais que grites!,
Por ais que vás, acrobata!,
Por mais que vás…!

Ai!, a vida!

… Assim, me surge tão bela,
Tão digna de ser vivida,
Sorvida
Até se esgotar,
Que eu sei que é faminto dela
Que me hei-de matar.

De As Encruzilhadas de Deus
RÉGIO, José,  Antologia Poética, Não Vou Por Aí!

José Régio (Vila do Conde, 17/09/1901 – Vila do Conde, 22/12/1969)
Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira
Poeta, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, crítico, fundador da revista Presença com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, desenhador, coleccionador, licenciado em Filologia Românica, professor.

Vinicius de Moraes – Samba da Bênção
Julho 31, 2017

 

É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza

É preciso um bocado de tristeza

É preciso um bocado de tristeza

Senão, não se faz um samba não

Fazer samba não é contar piada

E quem faz samba assim não é de nada

O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança

E a tristeza tem sempre uma esperança

A tristeza tem sempre uma esperança

De um dia não ser mais triste não

Ponha um pouco de amor numa cadência

E vai ver que ninguém no mundo vence

A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração

 

De Livro de Letras

 

In MORAES, Vinicius de, O Poeta não Tem Fim

 

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19/10/1913 – Rio de Janeiro, 9/7/1980)
Poeta, jornalista, compositor, diplomata.

Eugénio de Andrade – De Ramo em Ramo
Julho 31, 2017

 

Não queiras transformar

em nostalgia

o que foi exaltação,

em lixo o que foi cristal.

A velhice,

o primeiro sinal

de doença da alma,

às vezes contamina o corpo.

Nenhum pássaro

permite à morte dominar

o azul do seu canto.

Faz como eles: dança de ramo

em ramo.

 

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005)
Pseudónimo de José Fontinhas.
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

António Gedeão – Poema do Estrangeiro
Julho 31, 2017

 

Aponta o estrangeiro com o dedo risonho

as orlas da praia

onde as areias do quotidiano bebem as velhas

[águas.

 

Vai alegre, o estrangeiro.

Com o alpendre da mão encobre o Sol dos olhos

e indaga à sua volta.

Indaga o longe e o perto, o alto e o baixo, o quieto e

[o turbulento

 

e ri-se, ri-se muito de contente,

e aprova com a cabeça o movimento das águas.

Alegra-se o estrangeiro

de ver o mais que visto.

É a areia, é o barco, é a gaivota,

é o pano do toldo que esvoaça,

é o Sol que avermelha a face branca,

é a criança em fuga das águas que a perseguem.

E ri-se, ri-se muito de contente

porque a alegria do estrangeiro é o não estar

onde estaria se não estivesse ali vendo a gaivota,

e a areia, e o barco, e tudo o mais que visto,

enquanto a água se evapora na evaporação de todos

[os dias.

 

GEDEÃO, António, Poemas Escolhidos

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência.

Jorge de Sena – Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya
Julho 31, 2017

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.

É possível, porque tudo é possível, que ele seja

aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,

onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém

de nada haver que não seja simples e natural.

Um mundo em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem sequer isto

o que vos interesse para viver. Tudo é possível,

ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,

ou mais que qualquer delas uma fiel

dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade

não tem conta o número dos que pensaram assim,

amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,

de insólito, de livre, de diferente,

e foram sacrificados, torturados, espancados,

e entregues hipocritamente à secular justiça,

para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,

a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas

à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,

foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,

e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,

ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras

por serem de uma classe, expiaram todos

os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência

de haver cometido. Mas também aconteceu

e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer

aniquilando mansamente, delicadamente

por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.

Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,

foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha

há mais de um século e que por violenta e injusta

ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,

que tinha um coração muito grande, cheio de fúria

e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve,

nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)

de ferro e de suor e sangue e algum sémen

a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém

vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa – essa alegria.

Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto

não é senão essa alegria que vem

de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez

alguém está menos vivo ou sofre ou morre

para que um só de vós resista um pouco mais

à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente,

sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,

e sobretudo sem desapego ou indiferença,

ardentemente espero. Tanto sangue,

tanta dor, tanta angústia, um dia

– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –

não hão-de ser em vão. Confesso que,

muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos

de opressão e crueldade, hesito por momentos

e uma amargura me submerge inconsolável.

Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,

quem ressuscita esses milhões, quem restitui

não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes

aquele instante que não viveram, aquele objecto

que não fruíram, aquele gesto

de amor, que fariam «amanhã».

E, por isso, o mesmo mundo que criemos

nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa

que não é só nossa, que nos é cedida

para a guardarmos respeitosamente

em memória do sangue que nos corre nas veias,

da nossa carne que foi outra, do amor que

outros não amaram porque lho roubaram.

 

Lisboa, 25-06-1959

 

Jorge de Sena (Lisboa, 2/11/1919 – St.ª Bárbara, Califórnia, 4/6/1978)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor, professor catedrático, licenciado em Engenharia Civil e doutorado em Letras.

Cora Coralina – Antiguidades
Julho 7, 2017

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada…
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
“Tomando propósito”.
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.

Não poupava as crianças.
Mas, as visitas…
– Valha-me Deus !…
As visitas…
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades…

Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita – alta, magrinha.
Lili – baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
“- Lili é a bengala de D. Benedita”.
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio…
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando “causos” infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
– ai de mim –
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.

 Cora Coralina (Cidade de Goiás, 20/08/ 1889 – Goiânia, 10/04/1985)
Pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
Poetisa e contista, foi a primeira mulher a ganhar o prémio Juca Pato (1983).
Começou a escrever aos 14 anos, mas só publicou o primeiro livro aos 75 anos.

Carlos Queirós – Anti-Soneto, Ao Mário Saa
Julho 7, 2017

 

O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
(Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio),
Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

QUEIRÓS, Carlos,  Cadernos de Poesia

Carlos Queirós (Lisboa, 5/4/1907 – Paris, 27/10/1949)
Poeta modernista, um dos grandes vultos da Revista Presença.