António Gedeão – Poema do Estrangeiro

 

Aponta o estrangeiro com o dedo risonho

as orlas da praia

onde as areias do quotidiano bebem as velhas

[águas.

 

Vai alegre, o estrangeiro.

Com o alpendre da mão encobre o Sol dos olhos

e indaga à sua volta.

Indaga o longe e o perto, o alto e o baixo, o quieto e

[o turbulento

 

e ri-se, ri-se muito de contente,

e aprova com a cabeça o movimento das águas.

Alegra-se o estrangeiro

de ver o mais que visto.

É a areia, é o barco, é a gaivota,

é o pano do toldo que esvoaça,

é o Sol que avermelha a face branca,

é a criança em fuga das águas que a perseguem.

E ri-se, ri-se muito de contente

porque a alegria do estrangeiro é o não estar

onde estaria se não estivesse ali vendo a gaivota,

e a areia, e o barco, e tudo o mais que visto,

enquanto a água se evapora na evaporação de todos

[os dias.

 

GEDEÃO, António, Poemas Escolhidos

 

António Gedeão (Lisboa, 24/1/1905 – Lisboa, 19/2/1997)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Poeta, pedagogo, historiador de ciência e educação, professor, licenciado em Ciência.

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