Clarice Lispector – O Nascimento do Prazer

 

“O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.

A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportável mente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é morte, é a vida incomensurável  que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode constituir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido.Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.”

 

LISPECTOR, Clarice, A Descoberta do Mundo

 

Clarice Lispector (Tchetchelnik, Ucrânia 10/12/1920 – Rio de Janeiro, 09/12/1977)
Contista, romancista, cronista, tradutora, jornalista, licenciada em Direito.

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