Mário Cesariny – Ars Magna

Devo ter corredores por onde ninguém passe devo ter um mar próprio e olhos cintilantes

devo saber de cor o ceptro e a espada

devo estar sempre pronto para ser rei e lutar

devo ter descobertas privativas implicando viagens ao grande imprevisto

de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do teu peito o animal que inanimado canta

devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis

devo separar bem a alegria das lágrimas

fazer desaparecer e fazer que apareça

dia sim dia não

dia sim dia não

devo ter no meu quarto espelhos mais perfeitos técnicas mais sérias prestígios maiores

devo saber que és forte e amplo transparente e colher-te murmúrio flébil aureolado

que eu arranco da luz que encharca o mundo

dia sim dia não dia sim dia não

devo portar-me bem à saída do teatro

devo dar e tirar as chaves do universo

num passo ágil belo natural

e indiferente ao triunfo aos castigos aos medos

fitar unicamente, sob as luzes da cúpula, o voo tutelar da invisível armada

 

CESARINY, Mário, Manual de Prestidigitação

Mário Cesariny (Lisboa, 9/8/1923 – Lisboa, 26/11/2006)
Pintor e poeta, fundador do Movimento Surrealista Português.

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