Archive for Agosto, 2017

Gestão Cruz – No Meio de Setembro
Agosto 31, 2017

 

Sob o calor das nuvens que se torcem

como toalhas fumegantes

na casa qualquer voz parece noite

 

CRUZ, Gastão, Crateras

 

Gastão Cruz (Faro, 20/7/1941)
Poeta, crítico literário, encenador, licenciado em Filologia Germânica.

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Frederico Lourenço – A Cultura Clássica
Agosto 31, 2017

 

“Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora (…) sem andresinizar artificialmente o texto.”

 

In JL, 12 a 25 de Abril de 2017

 

Frederico Lourenço (Lisboa, 8/5/1963)
Romancista, contista, tradutor, vencedor de vários prémios literários, em 2016 o Prémio Pessoa, professor universitário.

Agustina Bessa Luís – Ser Escritora
Agosto 31, 2017

 

“Sendo eu escritora, estou pronta a divagar sobre os assuntos quer vêm ter comigo. Eles têm mais força do que eu. Ainda que se apresentem como pobres, esperam que eu nos seus andrajos não me engane. E descubram oiro que trazem às mãos cheias, porque tudo o que é humano é auxiliar da glória.”

LUÍS, Agustina Bessa, Pensadora entre as coisas pensadas

 

Agustina Bessa Luís (Vila Meã, Amarante, 15/10/1922)
Pseudónimo de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
Romancista, dramaturga, novelista, contista, ensaísta, autora de biografias e literatura infantil, colaboradora de diversas publicações periódicas, detentora de vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2004.

Luísa Dacosta – Apelo
Agosto 28, 2017

 

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

 

Luísa Dacosta (Vila Rela de Trás-os-Montes, 16/2/1927 – Matosinhos, 15/02/2015)
Escritora de literatura infantil, poetisa, contista, ensaísta, crítica literária, tradutora, colaboradora de jornais e revistas, professora, licenciada em Histórico-Filosóficas.

Manuel Gusmão – Coda
Agosto 28, 2017

Agora ela está no filme dentro do sonho: da esquerda vem
caminhando por entre as aves que no claro céu escrevem
verdes palavras novas e a vão de si mesma separando
para de novo à frente a reunirem e novamente a dividirem.
Como se ela fosse as sílabas separadas do seu nome nascendo:
fotografias sucessivas, algumas já perdidas, ou roubadas.

Quando chega ao fim do ecrã, à direita, o plano muda;
e ela vem agora em sentido contrário escandindo as luzes
do inverno numa rua nocturna dos subúrbios de uma cidade
onde nunca estiveste. Confundes o seu com outros vultos
e não sabes se é ela que foge ou se é ela quem distribui
a ameaça ou a elegância infinita de quem se perdeu.

Com as mãos empurra a fronteira da cena até que aparece
uma praia já por novembro dentro por onde vagarosa vem
mas triste não; rindo de qualquer coisa sem razão e sem som.
Subitamente parece interromper a travessia ao longo do ecrã
e olha para o sonhador que dentro do filme sonha a vida verdadeira,
É então que a luz a extingue e abre ao centro uma flor de fogo.

O plano muda outra vez. Ela reaparece vinda da direita; vem
andante; transporta consigo a luz e a sombra intermitentes; ela
é a sua própria declinação; ela distribui o fluxo e o refluxo
das imagens do mundo. A luz que ela decompõe e concentra
começa a queimar as margens do filme, as fronteiras do sonho.
Ela volta para trás no verso como se subisse até à nascença do canto.

 

Manuel Gusmão (Évora, 11/2/1945)
Poeta, ensaísta, tradutor, colaborou em diversas publicações, fundador das revistas: Ariane e Dedalus, coordenador da revista Vértice desde 1988, professor universitário.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – Manuel Rui – Praia da llha
Agosto 28, 2017

Satírica a praia
tão cheia de latas
e seios meios
de mulatas
que até parece dantes
salvo as melhoras
cooperantes

Satírica a praia
a olhar-me envergonhada
nesse passar de lado
como se fosse importante
e ficar assim diante
a meditar

é para quem merece
e sobe e desce
e sabe mergulhar

 

Manuel Rui (Nova Lisboa, Angola, 1941)
Poeta, cronista, crítico, ensaísta, professor de literatura, colaborador em jornais, revistas e programas de rádio e cinema, advogado, fundador e membro da União dos Artistas e Compositores Angolanos, da Sociedade de Autores Angolanos e da União de Escritores Angolanos.

Maria Ângela Alvim – Soneto ao Amigo
Agosto 28, 2017

 

Procure ao largo de alma o lenitivo

para este mal da vida, sem promessa.

O corpo vive alheio a se ter vivo

quando fome maior nos arremessa.

 

Temos todos, enfim, um amor cativo

que tudo pode e inflama e tudo cessa

quando liberto em si vê seu motivo

a este amor dê tudo e nada peça.

 

Cante em sua voz o rito e os dissabores

do tempo e acontecer mas abstraindo

aspecto transitório e fáceis cores.

 

Só amor, enquanto é, nos anistia:

sem ele, seres, coisas, verso vindo;

são refúgios do medo sem poesia.

 

Maria Ângela Alvim (Volta Grande, Minas Gerais, 1/1/1926 – Rio de Janeiro, 19/10/1959)
Poetisa.

Nélida Piñon – A Aventura da Escrita
Agosto 28, 2017

 

“Penso que cheguei à escritura levada por uma irresistível atração pela aventura. Sonhava em jamais dormir duas noites sob o mesmo teto, ainda que no lar fosse uma menina feliz. Eu queria ser Simbad, navegar sem jamais me deter.”

 

Nélida Piñon (Rio de Janeiro, 03/05/1937)
Romancista, contista, cronista, ensaísta, autora de literatura infanto-juvenil, licenciada em Jornalismo, primeira mulher a ser eleita presidente da Academia Brasileira de Letras.

Olavo Bilac – A Um Poeta
Agosto 28, 2017

 

Longe do estéril turbilhão da rua,

Beneditino escreve! No aconchego

Do claustro, na paciência e no sossego,

Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

 

Mas que na forma se disfarce o emprego

Do esforço: e trama viva se construa

De tal modo, que a imagem fique nua

Rica mas sóbria, como um templo grego

 

Não se mostre na fábrica o suplicio

Do mestre. E natural, o efeito agrade

Sem lembrar os andaimes do edifício:

 

Porque a Beleza, gêmea da Verdade

Arte pura, inimiga do artifício,

É a força e a graça na simplicidade

 

Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16/12/1865 – Rio de Janeiro, 28/12/1918)
Jornalista e poeta, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, autor da letra do Hino à Bandeira.

 

Onésimo Teotónio Almeida – A Identidade
Agosto 28, 2017

 

“Quando na minha juventude saí de São Miguel para ir viver para Angra, apercebi-me de que era Micaelense… mais tarde, ao mudar-me para Lisboa, reconheci-me açoriano. Na Europa senti-me português. Na América reconheci-me europeu. No Oriente, apercebi-me Ocidental”.

 

Onésimo Teotónio Almeida (Pico da Pedra, Açores, 18/12/1946)
Escritor, ensaísta, cronista, colunista, professor universitário.