Archive for Outubro, 2017

Ana Goês – Convida-me só para Jantar
Outubro 31, 2017

 

E não queiras depois fazer amor.

Convida-me só para jantar

num restaurante sossegado

numa mesa de canto

e fala devagar

e fala devagar

eu quero comer uma sopa quente

não quero comer mariscos

os mariscos atravancam-me o prato

e estou cansada para os afastar

fala assim devagar

devagar

não é preciso dizeres que sou bonita

mas não me fales de economia e de política

fala assim devagar

devagar

deita-me o vinho devagar

quando o meu copo estiver vazio.

Estou convalescente

sou convalescente

não é preciso que o percebas

mas por favor não faças força em mim.

Fala, estás-me a dar de jantar

estás-me a pôr recostada à almofada

estás-me a fazer sorrir ao longe

fala assim devagar

devagar

devagar

 

Ana Goês (Carnaxide, 1936)
Poetisa e prosadora.

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Jaime Cortesão – À Minha Mãe e à Minha Terra
Outubro 31, 2017

 

A Ti, minha Mãe que tens o rosto

Dorido e iluminado duma santa,

Todo embebido em lágrimas de Amor,

É que a minha Alma, de joelhos, canta!

A Ti, e à minha Terra, as duas Mães,

 

Que me criaram juntas num abraço,

Pois ambas me trouxeram no seu ventre,

Ambas me adormeceram no regaço.

 

E tu, vento de orgulho, que em mim passas

Rugindo a toda hora,

Une-te ao pó:

E agora

Que de toda a minha Alma fique só

A trêmula inocência dum menino

Para que eu reze uma oração de Graças!

Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem

Tão doce, religiosa e comovida,

Com uma parte viva neste mundo

E outra maior que é para além da Vida!

Já, por amor de mim, desses teus olhos,

Postos num rosto triste e macerado,

Como uma fonte prestes a nascer,

Muita lágrima em fio tens chorado

E muitas inda estão para correr.

 

Também a Terra sofre das raízes,

Que a penetram na ânsia de sugar;

Das Águas que a retalham pra correr,

Das humildes sementes a acordar;

Sofrem os Rios concebendo a Névoa

As Árvores no esforço de se erguer,

E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre

Quando lhes bate o láteo do Vento

Ou se o Sol as devora, calcinante:

E é todo esse profundo Sofrimento

Para que eu num delírio ria e cante!

 

O vento, em fúria, passa sobre a Terra:

Talvez tu chores minha Mãe agora,

E quando eu canto, para ser Poeta,

Tu choras minha Mãe e a Terra chora.

 

A graça do teu rosto é já do Céu

Participa de Deus, de Eternidade,

E não se vê melhor estando ao perto:

Mas no vidente enlevo da Saudade,

Olhos fechados, coração aberto…

 

Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe!

E a minha Terra…: é só olhá-la bem,

Longe até às encostas,

Vêem-se choupos sempre até além…:

É a Paisagem toda de mãos postas!

 

Só tu podias ser a minha Mãe,

Só tu e mais ninguém

Trazer-me ao peito

É dar-me um leite em lágrimas banhado;

E que a estes meus olhos fosse dado

Só há no mundo este lugar eleito.

 

Graças, ó minha Mãe!, te venho dar

E a ti, boa Paisagem, também dou

Por meu divino gosto de cantar,

Pela parte mais santa do que sou!

 

É por amor das lágrimas ardentes,

Que te cavaram sulcos pelo rosto,

É por amor do céu e do Sol-posto,

Do Mar… de ti, Paisagem, que me abraças,

Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo

E que vos dou esta oração de graças.

 

E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem,

Ensinai-me a criar como as mulheres

E como a Terra generosa e ruda:

Que sofras , ó minha Alma, as dores do Parto,

Que dês o sangue aos versos que fizeres

Que o sol te queime e o Vento te sacuda!

 

Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa,

E vós, sagradas Águas e ramagens,

Bendita sejas tu entre as Mulheres,

Bendita seja tu entre as Paisagens!

 

CORTESÃO, Jaime, Glória Humilde (1914)

 

Jaime Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29/4/1884 – Lisboa, 14/8/1960)
Médico, político, escritor e historiador.

Luís Quintais – Realidade
Outubro 31, 2017

 

Olho para a realidade desprovida de silêncios.

As coisas são o que são. Porém, há que ter em conta

a gravidade que as prende à terra.

 

Os signos são os poucos recados que a vida pouca nos traz.

São o muito desta vida

onde árvores se perfilam nas avenidas, e nas avenidas

 

o frágil contraponto de domingo se passeia

atento à soalheira chegada de famílias-à-beira-Tejo

alheias à semana que aí vem, onde cada um por si,

 

e a desrazão por todos,

irá colher as incertezas do amanhã.

Dos sentidos todos o que resta são olhos fechados,

 

tacto de treva onde a realidade acaba

como um promontório sobre o Outono: onde começo

a contar as folhas, a memória da sua queda, a avisada música.

 

Luís Quintais (Luena, Angola, 19/8/1968)
Escritor, galardoado com prémios de poesia, antropólogo, professor universitário.

Teixeira de Pascoaes – Elegia do Amor
Outubro 30, 2017

 

I

Lembras-te, meu amor,

Das tardes outonais,

Em que íamos os dois,

Sozinhos, passear,

Para fora do povo

Alegre e dos casais,

Onde só Deus pudesse

Ouvir-nos conversar?…

Tu levavas, na mão,

Um lírio enamorado;

E davas-me o teu braço

E eu pálido, sonhava

Na vida, em Deus, em ti…

E, ao longe, o sol doirado

Morria, conhecendo

A noite que deixava…

Harmonias astrais

Beijavam teus ouvidos.

Um crepúsculo terno

E doce diluía

Na sombra, o teu perfil

E os montes doloridos…

Erravam, pelo azul,

Canções do fim do dia…

Canções que, de tão longe,

O vento vagabundo

Trazia, na memória…

Assim o que partiu,

Sobre as águas do mar

E vem de ver o mundo,

Traz, no seu coração

A imagem do que viu…

Olhavas para mim,

Às vezes, distraída,

Como quem olha o mar,

À tarde, dos rochedos…

E eu ficava a sonhar,

Qual onda adormecida,

Quando o vento também

Dorme nos arvoredos…

Olhavas para mim…

Meu corpo rude e bruto

Vibrava como a onda

A erguer-se em nevoeiro!

Olhavas descuidada…

Oh dor, ainda hoje te escuto

A música ideal

Do teu olhar primeiro!

Ouço bem  tua voz,

E vejo bem teu rosto,

No silêncio sem fim,

Na escuridão completa!

Ouço-te em minha dor,

Ouço-te em meu desgosto;

Vejo-te no meu sonho

Eterno de poeta!

O sol morria ao longe…

E a sombra da tristeza

Velava  com amor

Nossas doridas frontes…

Hora em que a flor medita

E a pedra chora e reza

E erguem as mãos de bruma

Ao céu, as tristes fontes…

Hora santa em que nós,

Felizes e sozinhos,

Íamos através

Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar

Ao longo dos caminhos…

Tudo em volta de nós

Tinha um aspecto de alma!

Tudo era sentimento,

Amor e piedade…

A folha que tombava

Era alma que subia…

E, sob os nossos pés,

A terra era saudade,

A pedra comoção

E o pó melancolia…

Falavas do luar,

Dos bosque, mais do amor;

Dos ceguinhos sem pão,

Dos pobres sem um manto…

Em cada tua palavra,

Havia etérea dor;

Por isso a tua voz

Me impressionava tanto!

E ficava a cismar

Que eras tão boa e pura,

Que, em breve, oh dor fatal,

Te chamaria o céu!

E soluçava  ao ver-te

Alguma sombra escura,

No teu rosto que o luar

Cobria, como um véu…

A tua palidez

Que medo me causava!

Teu corpo era tão fino e leve,

(Oh meu desgosto!)

Que eu tremia, ao sentir

O vento que passava!

Caía-me na alma a neve do teu rosto!…

Como eu ficava mudo

E triste sobre a terra!

E, uma vez, quando a noite

Amortalhava a aldeia,

Tu gritaste  de susto,

Olhando para a serra:

– “Que incêndio!” – E eu, a rir,

Disse-te: – “É a lua cheia!”

E sorriste também

Do teu engano… E a lua

Ergueu a branca fronte

Acima dos pinhais,

Tão ébria de esplendor,

Tão casta e irmã da tua,

Que eu beijei, sem querer,

Seus raios virginais!…

E a lua, para nós,

Os braços estendeu.

Uniu-nos num abraço

Esplêndido e profundo,

E levou-nos aos dois,

Com ela, até ao céu…

Somente, tu ficaste

E eu regressei ao mundo!…

 

II

Um raio de luar;

Entrando, de improviso,

No meu quarto sombrio,

Onde medito, a sós,

Deixa a tremer, no ar;

Um pálido sorriso,

Um murmúrio de luz

Que lembra a tua voz…

O outono que derrama

Ideal melancolia

Nas almas sem amor,

Nos troncos sem folhagem,

Deixa vibrar, em mim,

Saudosa melancolia,

Dolorida canção

Que lembra a tua imagem…

A noite que escurece

Os vales e os outeiros,

E que acende, num bosque,

A voz do rouxinol

E a estrela que protege

E guia os pegureiros,

A lágrima do céu

Ao ver morrer o sol,

Acorda no meu peito

Etérea e infinda dor

Que à memória me traz

A luz do teu olhar…

Tudo de ti me fala,

Ó meu longínquo amor!

As árvores, a terra,

Os rouxinóis e o mar!

Se passo por um lírio,

Às vezes, distraído,

Chama por mim, dizendo:

“Oh! Não te esqueças dela!”

Diz-mo o mesmo, chorando,

O vento dolorido;

Diz-mo a fonte a cantar;

Diz-mo a brilhar a estrela!

E vejo em toda a luz

Teus olhos a fulgir.

Como descubro em tudo

A alma que perdi!

Não encontro uma flor

Sem o teu nome ouvir…

Não posso olhar o céu

Sem me lembrar de ti!…

Por isso eu amo o pobre,

O triste e a Natureza,

A mãe da humana dor,

Da dor de Deus a filha!

Meu coração ao pé

Dum pobrezinho reza;

Canta ao lado dum ninho,

Ao pé da estrela brilha!…

O meu amor por ti,

Meu bem, minha saudade,

Ampliou-se até Deus;

Os astros abraçou…

Beijo o rochedo e a flor,

A noite e a claridade…

São estes, meu amor,

Os beijos que te dou!

Hás-de senti-los, sim,

Doce mulher de outrora.

Ó roxo lírio de hoje,

Ó nuvem actual!

Como, dantes, teu rosto,

A rosa ainda hoje cora…

Beijo-te sim, beijando

A rosa virginal…

Vêm doirar meu perfil

Teus olhos, dos espaços,

Teu amor, feito luz,

Desce do Firmamento.

Se abraço um verde tronco,

Eu sinto  entre os meus braços,

Teu corpo estremecer;

Como uma flor ao vento!

Soluça a tua dor

Nas infinitas mágoas

Que no fundo da tarde!

Ao céu, vejo subir…

Ouço bem tua voz

No marulhar das águas,

No murmúrio que sai

Das pétalas a abrir…

Se os lábios vou molhar

Nas ondas de uma fonte,

Queimam meu coração

Tuas lágrimas salgadas…

E quando acaricia

O vento a minha fronte,

Eu bem sinto sobre ela

As tuas mãos sagradas!…

Quando, à noite, no outono,

A lua, a branca Ofélia,

Morta, vai a boiar

Nas águas do Infinito,

Sinto doirar meu rosto

A palidez etérea,

Que, dantes, emanava

O teu perfil bendito…

Quando, em manhãs de abril,

Acordo, de repente,

E vejo no meu quarto

O sol entrar, sorrindo,

Julgo ver ante mim,

Teu corpo resplendente,

Tua trança de luz,

Teu gesto suave e lindo…

Descubro-te, mulher,

Na Natureza inteira,

Porque entendo a floresta,

A névoa, o céu doirado,

A estrela a arder no Azul,

A lenha na lareira

E o lírio que na cruz

Do outono está pregado!

Falas comigo, sim,

Da dor, do bem, de Deus…

Repartes o meu pão,

Amor, pelos ceguinhos…

E pelas solidões,

Os pobres versos meus,

Como os pobres que vão,

A orar, pelos caminhos…

És a minha ternura,

A minha piedade,

Pois tudo me comove!

O zéfiro mais leve

Acende, no meu peito,

Infinda claridade…

E a brancura do lírio

Enche meu ser de neve…

Todo eu fico a cismar

Na triste voz do vento,

Na atitude serena

E estranha duma serra;

No delírio do mar;

Na paz do Firmamento

E na nuvem que estende

As asas sobre a Terra!

Todo eu fico a cismar,

Assim como esquecido,

Ante a flor virginal

E o sol enamorado…

Ante o luar que nasce,

Ao longe, dolorido,

Dando às cousas um ar

Tão triste e macerado…

Todo eu fico a cismar…

Um vago e etéreo laço

Prende-me ao teu imenso

E livre coração

Que abrange toda a Terra

E ocupa todo o espaço,

E que vai povoar

A minha solidão!

Por isso, eu vivo sempre,

Em doce companhia,

Com o pobre que pede

E a estrela que fulgura…

E assim meu coração,

Igual à luz do dia,

Derrama-se no céu,

Em ondas de ternura…

Sou como a chuva e o vento

E como a bruma e a luz…

Lira que a mais suave

Aragem faz vibrar…

Água que, ao luar brando,

Em nuvens se traduz…

Fruto que amadurece

À luz dum só olhar!

Pedra que um beijo funde

E místico vapor

Que um hálito condensa

Em cada gota de água…

Aroma que um só ai

Encarna em triste flor,

Riso que muda em choro

A mais pequena mágoa…

Vivo a vida infinita,

Eterna, esplendorosa;

Sou neblina, sou ave,

Estrela e céu sem fim,

Só porque, um dia, tu,

Mulher misteriosa,

Por acaso, talvez,

Olhaste para mim…

 

MOURA, Vasco Graça, 366 poemas que falam de amor

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

Luís Amaro – A Teixeira de Pascoaes
Outubro 30, 2017

 

1
Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto

E, o silencio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
As sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que refletem nossa paisagem íntima.

Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra …

Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!

2
Lá vem a noite… As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.

Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contato mais íntimo das coisas
Que nos povoam e sobressaltam.

Lá vem a noite… E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa… Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!

3
Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!

Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe, teu perdão!

Um fio de música
Que vã ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção

E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz

Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!

Um fio de música
A dar-me alento
De olhar de frente
A luz do dia!

4
Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino …

Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!

Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas
— Minha alma necessita de silencio
E, refletindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!

5
Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome.
Pulsa num coração o ritmo do mundo.

Ignorado, longe, intranqüilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito

Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anônimo adivinha
Além da névoa persistente, triste…

E do silêncio emerge urna voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!

 

Luís Amaro (Aljustrel, 1923)
Poeta, bibliógrafo e crítico literário, co-dirigiu a revista Árvore, e colaborou nas publicações: Seara Nova, Távola Redonda e Portucale.

Lindolf Bell – Carta a um Adolescente
Outubro 30, 2017

 

Fizeste alusão ao trigo morto na tempestade,

ao teu pai,

ao teu irmão,

à rosa desfeita,

e consentiste tudo quando murmurei:

“a dor maior

é sermos isentos de querer.

Sem prefixos

seremos mais livres.

Deixa os deuses.

São ambíguos”.

 

Oh! Grande metáfora,

morte de tão pesada duração

bruma,

esplêndida revolta

de teu coração sem volta,

amálgama amada,

emergência.

 

Lembro bem de teus olhos simples,

simples olhos fundos.

Das olheiras escuras

como limbo de peras.

 

Mas como explicar o ar de saque,

se em cada coração existe um dique

sempre prestes a transbordar,

se colhemos o doce crime um do outro?

 

Existência híbrida de infância e madurez!

Deslumbramentos,.

quanta avidez fibra por fibra

e que desvairada confluência.

 

Lindolf Bell (Timbó, 2/11/1938 – Blumenau, 10/12/1998)
Poeta, grande divulgador da poesia: líder do movimento Catequese Poética – distribuição de poemas nas ruas, estádios, escolas, “boites”, teatros, fábricas, clubes, praças -, criador das camisetas-poema, gravou poemas em blocos de granito na Praça do Poema, entre outras, formado em Dramaturgia.

José Saramago – No Silêncio dos Olhos
Outubro 30, 2017

 

Em que língua se diz, em que nação,

Em que outra humanidade se aprendeu

A palavra que ordene a confusão

Que neste remoinho se teceu?

Que murmúrio de vento, que dourados

Cantos de ave pousada em altos ramos

Dirão, em som, as coisas que, calados,

No silêncio dos olhos confessamos?

 

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Camões em 1995  e com  Prémio Nobel de 1998.

 

Murilo Mendes – Metade Pássaro
Outubro 30, 2017

 

A mulher do fim do mundo

Dá de comer às roseiras,

Dá de beber às estátuas,

Dá de sonhar aos poetas.

 

A mulher do fim do mundo

Chama a luz com assobio,

Faz a virgem virar pedra,

Cura a tempestade,

Desvia o curso dos sonhos,

Escreve cartas aos rios,

Me puxa do sono eterno

Para os seus braços que cantam.

 

MENDES, Murilo, O Visionário (1941)

 

Murilo Mendes (Juiz de Fora, 13/5/1901 – Lisboa, 13/8/1975)
Expoente máximo da poesia modernista brasileira, foi dentista, telégrafo, auxiliar de guarda-livros, notário, inspector do Ensino Secundário, professor universitário, esposo de Maria da Saudade Cortesão.

Maria da Soledade Cortesão – A Sesta
Outubro 30, 2017

 

Dentro das persianas encostadas

o sol vagueia pelo chão.

Até o linho se agarra à pela.

O rumor da água nos regos

insinua-se na sesta

 

alisa o ardor do ar.

 

Maria da Saudade Cortesão Mendes (Porto, 1938 – Lisboa, 25/11/2010)
Poetisa e tradutora, filha de Jaime Cortesão e viúva de Murilo Mendes.

Miguel Torga – A Máquina
Outubro 30, 2017

 

“A máquina é dos mais perfeitos milagres do nosso tempo. (…)

Mas, como todos os milagres, tem o sue perigo. o de a gente pôr neles uma fé tão cega que não fique lugar para a presença céptica da razão que os fez.”

 

TORGA, Miguel, Diário III

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.