Archive for Novembro, 2017

Raul de Carvalho – O Meu Alentejo
Novembro 25, 2017

 

Se há coisa que eu sinta
Com amor e terror
São as coisas que falam
Do meu Alentejo

CARVALHO, Raul de, Tautologias (1968)

Raul de Carvalho (Alvito, 4/9/1920 – Porto, 3/9/1984)
Poeta, colaborar em diversas publicações, nomeadamente: Távola Redonda, Cadernos de Poesia e Árvore, de que foi co-director, pintor e fotógrafo.

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Florbela Espanca – Versos de Orgulho
Novembro 25, 2017

 

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!…

 

ESPANCA, Florbela, Charneca em Flor

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Camilo Castelo Branco – O Segredo de Salver-me pelo Amor
Novembro 25, 2017

 

Quem há aí que possa o cálix
De meus lábios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poderá mudar as cenas
Que ninguém pôde mudar?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gota de água
Nesta angustiosa frágua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em vão.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz à infância ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

Mas estas palmas tais eram
Que, postas no coração,
Fundas raízes lançavam,
E nas lágrimas medravam
Com frutos de maldição.

Em ânsias de alma, a ventura
Nos dons da ciência busquei.
Tudo mentira! A ciência
Era um sinal de impotência
Da vã Razão que invoquei…

Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra caía,
Só ficava Deus e a fé.

Lancei-me aos braços do Eterno
Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dores,
Mais agros os dissabores…
O próprio Deus não me quis!

Depois, no mundo, cercado
Só de angustias, divaguei
De um abismo a outro abismo
Pedindo ao louco cinismo
O prazer que não achei.

Tristes correram meus anos
Na infância que em todos é
Bela de crenças e amores,
Terna de risos e flores
Santa de esperança e de fé.

Assim negra me era a vida
Quando, ó luz da alma, te vi
Baixar do céu, onde outrora
Te busquei, mão redentora,
Procurando amparo em ti.

Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéus
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um prémio vindo dos céus?

E eu mereço-te, que imenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação sofridas
Nos seios do coração.

Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delírio,
Nova dor, novo martírio,
De ti vindo, aceitarei!

Se na terra um céu desejas
Como o céu que eu tanto quis,
Se d’um anjo a glória queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.

Faz que eu veja nestas trevas
Um relâmpago de amor,
Que eu não morra sem que diga:

“Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dor.

Deu-me ela o estro grande
Das memoráveis canções;
Acendeu-me a extinta chama
Da inspiração que inflama
Regelados corações.

Os segredos dos afectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-mos ela um dia
Que de entre arcanjos descia
Com linguagem do céu.

Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-mos, deu-mos ela
Recostando a fronte bela
Sobre o meu ardente seio.

Morta estava a fantasia
Que o gelo da alma esfriou;
Tinha o espírito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céu me a deparou.

Agora morro no gozo
De uma saudade imortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.

Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente e progressivo
Em perpétuo amor do céu”.

Assim, querida, meus lábios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas
Do meu ao teu coração.

Sabes quem é, neste mundo,
Quase igual ao Redentor?
É quem diz: “Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ânsias da dor.”

BRANCO, Camilo Castelo, In Carta a Ana Plácido (1858)

 

Camilo Castelo Branco (Lisboa, 16/3/1825 – S. Miguel de Seide, 1/6/1890)
Romancista, cronista, crítico, dramaturgo, poeta e tradutor.

Fialho de Almeida – Dedicatória a Camilo Castelo Branco
Novembro 25, 2017

 

“Acabo de reler toda a sua obra. Quanto, no artista e no escritor, o talento tem de maleável, de voluntarioso e de grande –  a ironia na sua expansão facetada e cortante, o estilo na elástica elegância nervosa dos seus moldes plásticos, e a observação no seu processo tenaz de análise e de crítica -, tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas, com uma opulência que deslumbra.

Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lha recusarão com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista os seus trinta anos de gloriosa e florescente actividade.

Peço-lhe que aceite a dedicatória deste livro medíocre, que pude elaborar nos ócios de uma vida cortada de trabalhos e dissabores. Duas coisas me levam a consagrar-lho –  o intento de amortizar uma dívida de gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de tirar o chapéu diante do que é superior.”

ALMEIDA, Fialho de, Contos

 

Fialho de Almeida (Vila de Frades, Vidigueira, 7/5/1857 – Cuba, 4/3/1911)
Contista, crítico de arte e costumes, jornalista, panfletário, licenciado em medicina, que praticamente não exerceu, optando pela vida literária.

Guerra Junqueiro – A Moleirinha
Novembro 19, 2017

 

Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
E, contudo, alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca.
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca,
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa…
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume…
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
P´ra vestir os netos, p´ra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, p´ra fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata…
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!…

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d’outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!…
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d’astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d’oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!

 

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15 /09/1850 — Lisboa, 07/07/1923)
Poeta, o mais popular da sua época, jornalista, político, licenciado em Direito.

Glória de Sant´Anna – Silêncio
Novembro 19, 2017

 

Silêncio aberto

de plenitude

como uma ilha

num lago fundo.

 

Silêncio exacto

cheio de música

vindo de nada

contendo tudo.

É este agora

deste momento

em que estando

me ausento.

 

Glória de Sant´Anna (Lisboa, 1925 – 2/6/2009)
Poetisa, colaboradora de publicações em Moçambique, onde viveu de 1951 a 1975, professora.

Gerardo Mello Mourão – Eva
Novembro 19, 2017

 

Adormecera à beira do riacho

e o sonho e a flor dessa maçã

da primeira saudade – do primeiro desejo do mundo

habitavam seu sono.

 

Despertara – e dela despertaram

um tato uns olhos um perfume – e o véu

dos cabelos cobria ancas

seios nunca vistos:

 

Eva bailava sobre chão de folhas

 

desde então

desde sono e sonho se incorpora sempre

ao homem sonhador o sortilégio

da primeira mulher

coisa e criatura e criadora

de seus tatos seus aromas – aflição e festa

de estrelas na pupila.

 

Gerardo Mello Mourão (Ipueiras, 8/11/1917 – Rio de Janeiro, 9/3/2007)
Poeta, escritor, jornalista, e professor universitário.

Gentil Valadares – Coração
Novembro 19, 2017

 

Se eu fosse um ditador,

El-rei ou mandatário…

Se dum império vário

Seu único senhor

Eu fosse;

 

E o povo – bom juiz –

Erguesse contra mim

A voz, o braço enfim,

Por jugo mais feliz,

Mais doce:

 

Mandava os meus soldados

Em barcos e aviões,

Com tanques e canhões,

De baioneta armados,

E então,

 

Em guerra a todo o lar,

Ao negro que trabalha,

Em vez dessa metralha,

A Luz, a Paz lhe dar,

E o Pão!

Gentil Valadares de Seixas (Chaves, 25/2/1916 – Alvor, 17/9/2006)
Poeta, colaborador em publicações, membro da Associação Portuguesa de Escritores.

Fernando Assis Pacheco – Louvor do Bairro dos Olivais
Novembro 19, 2017

 

Não tive nunca nada a ver com as

guitarras estudantes; eu vivia

num lento bairro da periferia

onde a chuva apagava os passos das

 

pessoas de regresso a suas casas

fazia compras na mercearia

e algum livro mais forte que então lia

já era para mim como um par d’asas

 

amigos vinham ver-me que eu servia

de ponche ou Madeira malvasia

para soltar as línguas livremente

 

um que bramava um outro que dormia

eu abria a janela e só dizia

ao menos estas ruas têm gente

 

PACHECO, Fernando Assis, A Musa Irregular

 

Fernando Assis Pacheco (Coimbra, 1/2/1937 – Lisboa, 30/11/1995)
Poeta, romancista, novelista, jornalista, crítico e tradutor.

Fernando Amado – A Nobreza
Novembro 19, 2017

 

“Repudiamos sim a democracia que se resolve em brigas de partidos, – que nega a hierarquia como elemento informador do escol (nobreza) – que, por artes mágicas, faz sair a autoridade da urna, onde os homens são representados por vagas abstracções numéricas.

Negamos a luta de classes, base, condição e, acima de tudo, arma propagandística de um sistema fechado, interesseiro, catastrófico, inumano. Tomando partido pela colaboração social, pressupomos naturalmente entre os homens faculdades e funções diversas (…), e acreditamos as possibilidades criadoras da hierarquia.

(…)

A nobreza, que se renova pelo povo, vai direito ao povo, ampara, protege.”

 

AMADO, Fernando, Estrada Real (ensaio político), 1943, p. 183

 

Fernando Amado (1899-1968)
Professor do Conservatório, dramaturgo, encenador, actor, crítico de teatro, traduto, co-fundador da Casa da Comédia.