Archive for Janeiro, 2018

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – Noémia de Sousa – Canção Fraterna
Janeiro 30, 2018

 

Irmão negro de voz quente

o olhar magoado,

diz‑me:

Que séculos de escravidão

geraram tua voz dolente?

Quem pôs o mistério e a dor

em cada palavra tua?

E a humilde resignação

na tua triste canção?

 

Foi ávida? o desespero? o medo?

Diz‑me aqui, em segredo,

irmão negro.

 

Porque a tua canção é sofrimento

e a tua voz sentimento

e magia.

Há nela a nostalgia

da liberdade perdida,

a morte das emoções proibidas,

e a saudade de tudo que foi teu

e já não é.

 

Diz‑me, irmão negro,

Quem fez a vida assim…

Foi a vida? o desespero? o medo?

 

Mas mesmo encadeado, irmão,

que estranho feitiço o teu!

A tua voz dolente chorou

de dor e saudade,

gritou de escravidão e veio murmurar à minha em alma ferida

que a tua triste canção dorida

não é só tua, irmão de voz de veludo

e olhos de luar.

Veio, de manso murmurar

 

que a tua canção é minha

 

SOUSA, Noémia de, Sangue Negro

 

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (Catembe, Moçambique, 20/09/1926 – Cascais, 04/12/2002)
Poetisa, jornalista, tradutora, militante política, é considerada a “Mãe dos poetas moçambicanos”, tia de Guilherme Ismael.

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Al Berto – [Estremecem-me as Mãos…]
Janeiro 30, 2018

 

“(…) estremecem-me nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva”

 

AL BERTO, in mar-de-leva

 

Al Berto (Coimbra, 11/1/1948 – Lisboa, 13/6/1997)
Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares
Poeta, pintor, editor, animador cultural, um “coimbrense-siniense” único.

Guilherme Ismael – Um Filme “Para Demolição”
Janeiro 30, 2018

 

Natal era o nome de um papagaio que à evocação dos três Reis Magos desatava a dizer palavrões numa catrefada de línguas e que o Al Berto conheceu numa taberna portuária em Antuérpia.

Mostrou-me a anotação num caderno e uma fotografia do bicho, nessas duas semanas em que estivemos a filmar, na Quinta de Santa Catarina, em Sines, onde então vivia.

Realizava o filme o Guilherme Ismael, um amigo que fiz na Escola de Cinema, dez anos mais velho do que eu e que estivera exilado com o Al Berto em Bruxelas. Aí haviam escrito a quatro mãos um delirante exercício narrativo em que cada um deles contava a sua versão da queda livre de um pára-quedista cujo dispositivo se revelou avariado.

Na câmara e na produção estava o Costa e Silva e eu, que fazia o papel de um escritor mergulhado nos seus fantasmas, todas as noites, duplicando a coisa, martelava na máquina de escrever para continuar o guião e fixar o que iríamos filmar no dia seguinte.

(…)

O Al Berto de vez em quando aparecia nos espelhos como um espírito da casa. Tinha-me alcunhado como o “De Niro das Torcatas” (o meu bairro de nascença).

Mas levávamos tudo muito a peito e estivemos uns doze dias fechados no casarão a filmar aquela média-metragem.

O Guilherme trabalhou dois meses na montagem do filme no Centro Português de Cinema e lá depositou as latas quando foi chamado para trabalhar na BBC. Faltava unicamente acrescentar dez minutos de música à banda sonora – de resto a fita, com 50 m, estava pronta e seria um ovni no panorama do cinema português dessa altura. (…)

Quando ele regressou no ano seguinte, para passar o Natal e gozar as suas férias e acabar o filme, deu conta que os seus colegas cineastas, num gesto canalha, tinham aberto as latas e usado a película como pontas de montagem.

Nunca ouvi o Guilherme, que era negro, acusar a atitude dos colegas como um gesto de racismo, mas visto à distância era bastante plausível.

E a brincadeira começou de certeza como um comentário irónico ao título que tínhamos dado ao filme: “Para demolição!”.

Foi um dos meus piores Natais, recordo eu agora, deste meu Natal a 33 graus.

(…)”

 

In hojemacau, “Do Natal e da Paixão”,  António Cabrita, 26 Dez 2017

 

Guilherme Ismael (Moçambique, 1950 – 4/12/1994)
Poeta e autor de inéditos de vários géneros, jornalista na BBC onde criou o programa Tribuna Cultural dedicado à cultura africana, destacando Moçambique, foi um  dos fundadores da AIM, cultor de actividades cinematográficas, colaborador no JL como crítico de cinema; era sobrinho da poetisa Noémia de Sousa.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Cabo Verde – Germano d´ Almeida – Cabo Verde e a Literatura-Mundo
Janeiro 30, 2018

 

“Cabo Verde ainda não tem uma literatura-mundo porque sozinhos não conseguimos chegar ao mundo. Diversos livros meus foram traduzidos para diversas línguas estrangeiras, todos com o apoio de Portugal, nenhum com o apoio de Cabo Verde.”

“Não sei até que ponto Cabo Verde tem apoiado a tradução de livros no estrangeiro, mas é uma necessidade que nós é que temos que cumprir se queremos que a nossa literatura chegue ao mundo.”

“Para mim, Cabo Verde é o centro do mundo. Escrevo para ser entendido pela minha gente e ficaria desiludido se os cabo-verdianos não me entendessem. Fico muito contente de ser lido em Cabo Verde. Se lá fora for lido e traduzido também fico contente, mas não escrevo a pensar nisso, nem é uma preocupação minha.”

“(…) A literatura-mundo é um modo de ler e de olhar para a literatura que privilegia o contacto entre as literaturas e o valor da tradução que permite a circulação. Não é o somatório de todas as literaturas do mundo, é perceber como todas as literaturas podem ser mundo. (…)”

Germano d´ Almeida (Boa Vista, Cabo Verde, 1945)
Contista e romancista, advogado.

Eduíno de Jesus – [A Noite É de Estrelas]
Janeiro 30, 2018

 

A noite é de estrelas

Pelo céu brilhando

E as moças donzelas

As moças donzelas

Rezando rezando:

 

Não vem um ladrão

Não vem um banqueiro

Ou um trovador

Ou um cavaleiro

 

A noite é de estrelas

Pelo céu ardendo

E as moças donzelas

As moças donzelas

Dizendo dizendo:

 

Não vem um senhor

De alto coturno

Não vem um polícia

Ou o guarda-nocturno

 

A noite é de estrelas

Pelo céu luzindo

E as moças donzelas

As moças donzelas

Sorrindo sorrindo:

 

Não vem um amigo

Ou um inimigo

Não vem um soldado

Não vem um mendigo

 

A noite é de estrelas

Pelo céu redondo

E as moças donzelas

As moças donzelas

Supondo supondo:

 

Não vem um vadio

Ou um peregrino

Ou um saltimbanco

Ou um assassino

 

A noite é de estrelas

Pelo céu profundo

E as moças donzela

As moças donzelas

Sozinhas no mundo

 

JESUS, Eduíno de,  Os  Silos do Silêncio

 

Eduíno de Jesus (Ponta Delgada, Açores, 18/1/1928)
Ensaísta, dramaturgo, poeta, professor do Ensino Secundário e, posteriormente, docente universitário.

António Estanqueiro – Ser Professor
Janeiro 29, 2018

 

” (…) Escolhi a minha profissão certamente influenciado pelos bons professores que tive. Sou professor há mais de 35 anos. Durante este tempo, fui colaborador de diversos órgãos de comunicação social e recebi convites para me dedicar em exclusivo ao jornalismo. Optei por ficar no ensino. Acredito que decidi bem!

Participei na gestão da escola como coordenador dos professores de Filosofia, membro do conselho pedagógico e diretor de turma. Mas sinto-me mais realizado na interacão pedagógica com os alunos. Gosto da prática letiva. Por isso, na reflexão sobre a educação e sobre a minha experiência de professor, prefiro centrar-me no essencial da escola: ensinar e aprender.

Como a maioria dos professores, procuro conhecer e valorizar as capacidades, o estilo e o ritmo de aprendizagem dos alunos. Mas sou exigente em relação ao esforço que cada um deve fazer. Todos os dias, tento impedir que o vírus da mediocridade se propague à minha volta.

Penso que o papel do professor é preparar os alunos para a vida, não é aumentar o sucesso estatístico, tão desejado pelos governantes! Adocicar as dificuldades não ajuda a crescer. Os alunos têm de ser desafiados a desenvolver gradualmente as suas potencialidades, a esforçar-se, a dar o seu melhor na conquista do sucesso.

O sucesso é gratificante e o que é gratificante é motivador. Sei que o esforço dará melhores frutos se for acompanhado por um bom método de estudo. Nesse sentido, tenho dinamizado diversos projetos para ensinar a estudar. É certo que cada aluno deve construir o seu próprio método, de acordo com o seu estilo de aprendizagem e o tipo de tarefa a realizar. Mas precisa da orientação experiente do professor. O ensino será tanto mais eficaz, quanto mais depressa o aluno ganhar autonomia no processo de aprendizagem.

Valorizo a dimensão formativa da avaliação. Tenho por hábito ajudar os alunos a fazer a sua autoavaliação e a tomar consciência dos vários fatores que influenciam os resultados escolares. Um aluno consciente sente orgulho nos seus sucessos e, perante eventuais insucessos, não inventa justificações, atribuindo toda a culpa a outras pessoas ou à falta de sorte. Assume as suas responsabilidades e aprende as lições dos erros. Acredita nas suas capacidades. Sabe que, se persistir no esforço e aperfeiçoar o seu método de estudo, conquistará melhores resultados. (…)”

 

In Jornal de Letras, 14/12/2011.

António Estanqueiro (Ponte de Vagos, 1950)
Escritor e coautor de manuais escolares, professor de Filosofia e Psicologia.

Grupos Naturais – Dar na Gana a / Dar na Veneta / Dar o Braço a Torcer /Dar o Corpo ao Manifesto
Janeiro 29, 2018

 

 

Grupos Naturais – combinação de grupos a dois, associados naturalmente, frequentemente verbo-substantivo, constituindo expressões vulgarizadas pelo uso.

Apresentação de alguns exemplos:

Dar na gana a – apetecer.

 Ex.: A Júlia deu-lhe na gana ir à rua comprar um gelado e bateu com a porta, resmungando por terem comido o de bagas de romã sem que tivesse provado.

 

Dar na veneta – agir por impulso, satisfazendo algo que lhe ocorreu

Ex.: O Júlio deu-lhe na veneta, e foi buscar a lata de tinta e o rolo para pintar a mancha da chaminé, que já não podia ver.

 

Dar o braço a torcer – ceder, reconhecer que errou (ou não)

Ex.: A Pinguinhas, apesar de ainda estar zangada com o Pirolito, deu o braço a torcer e confessou que gostara de tê-lo visto a defender a Rabina.

A Maria Gulosa escondeu o chocolate na algibeira, mas não deu o braço a torcer, negando quando a mãe a questionou.

 

Dar o corpo ao manifesto – entregar-se arduamente ao trabalho, à luta.

Ex.: A Inocência levantou a sua plácida voz, declarando que, a partir daquele momento, poderiam contar consigo, pois iria dar o corpo ao manifesto.

 

(continua)

Américo Guerreiro de Sousa – A Cidade, Lisboa
Janeiro 29, 2018

 

“(…) A cidade é a heroína do romance, que se chama Ilda Lisboa. (…)

Mas a cidade é também, muito prosaicamente, Lisboa, com suas praças, ruas e habitantes, uma belíssima cidade um tanto detonada mas ainda com o Tejo à ilharga, um dos poucos rios onde continua a ser possível apanhar tainhas.

Uma cidade com um rio assim, numa paisagem de água tão vasta, tem de ser tomada muito em conta.”

SOUSA, Américo Guerreiro,  O Rei Dos Lumes, excerto de entrevista a Clara Pinto Correia

 

Américo Guerreiro de Sousa (Matosinhos, 24/03/1942)
Romancista e ensaísta, galardoado com o Prémio de Originais de Autores Portugueses da Associação Portuguesa de Escritores, Os Cornos de Cronos (1981) e Prémio Literário Círculo de Leitores, O Rei Dos Lumes (1984), professor e leitor de Português e Cultura Portuguesa, licenciado em Filologia Germânica, doutorado pela Universidade de Oxford com uma tese sobre Eça.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Angola – António Cardoso – O Mar Visto da Cadeia
Janeiro 29, 2018

 

O mar é largo

E profundo.

Tão largo e profundo,

Que cabe todo inteiro

E amargo, no fundo

Do simples olhar que lhe deito …

 

Estendido e liso,

Refeito como um ventre de mulher

Apetecido sem aviso,

Já teve sereias e monstros,

Ossos a apodrecer,

Para ser, agora,

De um qualquer …

 

Desencanto a apodrecer-

-me  o canto, nesta hora?

— Só se for nas areias

Onde morre monótono,

E nas marés-cheias

De tanto luar e espanto

Na memoria…

 

Já o tive

Insatisfeito,

Na cova da mão,

No búzio dos ouvidos,

E no sonho que ainda vive

De urna doce ilusão …

 

Inventei-lhe

Desaparecidos ecos,

Talvez reinos perdidos,

Tesouros, conchas,

Algas e palácios

Encantados de mouros …

 

Depois ficou só mar

Vulgar, indigesto,

Azul, verde, prateado,

«Grande … grande … »,

Com o resto afogado

No coração …

 

Chegou então a hora

Do mar lúcido

Sem papão,

Apreendido,

Económico,

Assassino, embora,

Mas também elo de ligação

 

23/4/71

 

António Mendes Cardoso (Luanda, 08/04/1933 – Lisboa, 26/06/2006)
Poeta e novelista, colaborador nas revistas Mensagem Cultura II, preso político.

Gonçalo Naves – é no peito a chuva – Nota Editorial
Janeiro 29, 2018

Nota editorial

É uma honra iniciar a nossa aventura editorial com um jovem autor que muito acarinhamos e que é muito cá de casa. Este é no peito a chuva, o seu segundo livro, é o nosso primeiro soltar de amarras como A das Artes, Editora.

Gonçalo Naves tem 20 anos. Fez o ensino secundário na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho e frequenta o 3.º ano da licenciatura em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Este é o seu segundo romance. O primeiro, Bem-vindos a esta noite branca, foi uma edição do autor. Viu na A das Artes a vontade de juntar sonhos e é em conjunto que iniciamos esta aventura.

Contamos com os leitores nesta nova viagem.

A das Artes, Editora
Sines, Novembro de 2017″

 

Gonçalo Naves, vinte anos, estudante universitário do terceiro ano da licenciatura em Direito na FDUL, “(…) um espírito inventivo superior, aliado a uma fina atenção ao que o rodeia (…) espantosa torrente criativa (…)” na voz de Joaquim Gonçalves, o sábio livreiro.