Archive for Fevereiro, 2018

Cecília Meireles – Ou Isto Ou Aquilo
Fevereiro 28, 2018

 

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

MEIRELES,  Cecília, Ou Isto Ou Aquilo

 

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7/11/1901 – Rio de Janeiro, 9/11/1964)
Poetisa, professora e jornalista, fundadora da 1.ª Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro.

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José Jorge Letria – [Chegou a Chuva de Mês de Março]
Fevereiro 28, 2018

 

Chegou a chuva de mês de Março

com as suas gotas miudinhas

e molhou as asas da borboleta.

Quis voar, mas não conseguiu,

que sem as asas enxutas

nenhuma borboleta atinge

o cume dos castelos do ar.

Voltou para a beira do casulo

e deixou-se ficar, muito triste,

a chorar. Passou uma abelha

e disse-lhe: não chores.

que as asas num instante secam.

Passou uma andorinha e disse-lhe:

que bonitas são as tuas lágrimas,

parecem pingos de cristal.

A borboleta com asas de vento

abraçou com força um raio de sol

e elevou-se no azul da tarde

devagar, muito devagar, sem se cansar.

LETRIA, José Jorge, A Borboleta com Asas de Vento

 

José Jorge Letria (Cascais, 08/06/1951)
Poeta, romancista, contista, dramaturgo, autor de literatura infanto-juvenil, coautorde antologias de poesia, jornalista.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Baamas, Bangladeche, Barbados, Barém, Bélgica, Belize, Benim, Bermudas, Bielorrússia
Fevereiro 28, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Baamas ————————————————— baamiano

Bangladeche ——————————————- bangladechiano

Barbados ———————————————— barbadense

Barém —————————————————- baremita

Bélgica ————————————————— belga

Belize —————————————————- belizense

Benim  ————————————————— beninês

Bermudas ——————————————— bermudense

Bielorrússia —————————————— bielorrusso

(continua)

Natália Correia – [Creio nos Anjos que Andam pelo Mundo]
Fevereiro 26, 2018

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

 

Natália Correia (Fajã de Baixo, S. Miguel, 13/9/1923 – Lisboa, 16/3/1993)
Poetisa, romancista, ensaísta, jornalista, dramaturga.

José Cardoso Pires – [A cidade Apareceu Ocupada e Radiosa…]
Fevereiro 25, 2018

 

“A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares inundadas de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não nos cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exactamente para onde mas decerto para a LIBERDADE!”

 

PIRES, José Cardoso, Alexandra Alpha

 

José Cardoso Pires (São João do Peso, 2/10/1925 – Lisboa, 26/10/1998)
Romancista, contista, novelista, cronista, ensaísta, dramaturgo.

Raul Brandão – [É com palavras…]
Fevereiro 25, 2018

 

“É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.”

BRANDÃO, Raul, Húmus

 

Raul Brandão (Foz do Ouro, 12/3/1867 – Lisboa, 5/12/1930)
Escritor, jornalista e militar.

Florbela Espanca – A Nossa Casa
Fevereiro 22, 2018

 

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro – tão bom! – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…

 

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8/12/1894 – Matosinhos, 8/12/1930)
Poetisa, 1.ª mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade
de Lisboa, percursora do movimento feminista em Portugal.

Luís de Camões – [Verdade, Amor, Razão, Merecimento]
Fevereiro 22, 2018

 

Verdade, amor, razão, merecimento,
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém, fortuna, caso, tempo e sorte,
Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento
E não sabe a que causa se reporte:
Mas sabe que o que é mais que vida e morte,
Não se alcança de humano entendimento.

Doctos varões darão razões subidas,
Mas são experiências mais provadas:
E por isso é melhor ter muito visto.

Coisas há que passam sem ser cridas:
E coisas cridas há sem ser passadas.
Mas o melhor de tudo é crer em cristo.

 

Luís de Camões (1517 e 1524(?) – Lisboa. 10/6/1580)
O maior poeta português de todos os tempos.

Manuel Bandeira – A Camões
Fevereiro 22, 2018

 

Quando nalma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

 

Manuel Bandeira (Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)
Poeta, crítico literário e de arte, tradutor, professor.

Paulo Teixeira – I – Credo quia absurdum
Fevereiro 22, 2018

 

Creio na vastidão ilimitada dos amores humanos,
esses amores que se fundem com os domínios
inelutáveis da dor: o amor, essa claridade
que não alcançou em nossos dias
a recôndita certeza dos deuses.

Amores
frágeis sob o voo irisado das aves, amores
de uma noite profunda ou de uma tarde amena
entre o regaço de outras mãos. Amores
de um país onde tudo se esquece entre
uma aurora e outra.

TEIXEIRA, Paulo, As Imaginações da Verdade

Paulo Teixeira (Lourenço Marques, atual Maputo, 1962)
Poeta, professor do Ensino Secundário, licenciado em Geografia e Planeamento Regional.