Archive for Março, 2018

Vasco Graça Moura – Soneto do Jazzband
Março 24, 2018

 

era noite, era noite, marcámos

[de mãos dadas

um ritmo interior dos corações, saía

do trombone em surdina quase uma

[voz humana,

uma voz rouca em scat, ah!, pulsações

[do banjo,

 

trompete, clarinete, estrídulo

[woody allen,

puro prazer do ritmo, convite

[a dança blues,

e em tantos contrapontos eu só

[sabia amar-te,

na sombra a tua face vibrava repentina,

 

e o piano e os drums e o contrabaixo,

[e aquelas

batidas do swing, o jazzband em pleno,

luzinhas na plateia e os beijos

[que te dei,

na onda esfuziavas e eu vi-me

[nos teus olhos

e ouvimos dixieland, e ouvimos

[new orleans

e eu amo-te, i love you, eu amo-te

[for ever.

 

In JL, 13-26  outubro de 2004

 

Vasco Graça Moura (Porto, 3/1/1942 – Lisboa, 27/04/2014)
Poeta, ficcionista, cronista, tradutor, licenciado em Direito.

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Teolinda Gersão – Lisboa
Março 24, 2018

 

“(…) É uma cidade com que me identifico. Gosto de flanar por Lisboa, de andar ao acaso, de meter-me pelas ruas e ver coisas que nunca tinha visto, cantos, recantos, janelas. E gosto de falar com as pessoas.

(…) partir à descoberta de Lisboa, que é um bom lugar para nos perdermos. Não é uma cidade monumental, é feita de pequenas coisas. Os bairros são todos diferentes. No fundo eram pequenas aldeias, com individualidade própria.

Sou sempre viajante, nunca turista. Ando sempre à procura de coisas  e Lisboa é um bom lugar para as encontrar, um bom lugar para encontros e para acasos. Já encontrei histórias e pessoas muito engraçadas deambulando por aí.

(…) gosto de descer o caracol da Graça, de andar por aquelas ruas, também por ser um sítio onde as pessoas ainda se conhecem, onde ainda se sabe onde há pão quente e a que horas.

(…) ia olhando para Lisboa já de outra maneira. Pensando que iria escrever sobre Lisboa, que tem muito para dizer e para ver. (…)”

In, JL, 9 a 22 de março de 2011

 

Teolinda Gersão (Coimbra, 1940)
Romancista, contista, professora universitária.

Casimiro de Brito – Última Visão de Fiama
Março 22, 2018

 

Um rosto, um olhar regaço

foi a primeira visão. Um olhar paciente

esperando que palavras caiam

maduras. Há pessoas assim, vêm da sombra

e trazem luz com elas, luz branca, pessoas que são

uma espécie silenciosa de mensageiros da paz.

Uma companheira poética.

 

Na primeira vez deu-me um livro

e desse livro colhi a primeira frase, o título,

Em cada pedra um voo imóvel – talvez

tivesse começado nesse dia

o meu hábito de ler quando deixo

de ler, colher uma pérola, ser escolhido

por ela e não precisar de ler mais nada, apenas

pegar na pedrinha e caminhar com ela

nas ruas ou nas praias,

transportá-la num lugar muito reservado

onde a mente e o coração se acasalam.

 

Oito sílabas perfeitamente acentuadas

no som e no sentido. Um ritmo discreto, quase obscuro

e um sentido enigmático que integra, desde a primeira fala,

o último sumário lírico, a marcha solar

do pó, a harmonia dos ossos, a narração

da frágil matéria do mundo. Um fragmento

da vida toda e da vida antiga.

Isto é, metáforas, o todo em todas

as coisas, em vários anéis que ora se concentram,

ora se descentram – é essa a essência

da poesia: o voo na pedra, a água que significa ave

quando a sílaba é um diamante,

uma mancha de voz

por onde circula o sangue que despe os objectos,

o pulso, a memória que existe nas palavras.

Ou são conchas? Isso ela diz, clarividente.

 

A homenagem à língua, à literatura

é antes de mais um ofício

entre o real e o divino, arte breve

que se faz com “o corpo carnal

dos meus poemas”, a matéria vagarosa

das coisas todas que são dadas no poema

e nele exigem estar.

 

Quando, muitos estações depois e quase sábia,

ela, como Hípias, se retirou dos negócios públicos

também eu coincidente me retirei.

Do velho tempo. E penso nela e louvo

o canto vivo que levou consigo, pedras únicas

com voo dentro

onde a narração do universo se consome

e nos saúda – deslumbrado com os espelhos aprendi

que nada equivale à vidraça do mundo.

 

In JL, 2007

Casimiro de Brito (Loulé, 14/1/1938)
Poeta, ensaísta e ficcionista.

Teixeira de Pascoaes – Ser Absolutamente
Março 21, 2018

 

“Não se trata de ser ou não ser, mas de ser absolutamente.”

 

PASCOAES, Teixeira de, Duplo Passeio

 

Teixeira de Pascoaes (Amarante, 8/11/1877 – Gatão, 14/12/1952)
Poeta, prosador, licenciado em Direito.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Colômbia; Comores; Congo-Brazzaville; Congo-Kinshasa; Coreia do Norte; Coreia do Sul; Córsega; Costa do Marfim; Costa Rica; Croácia; Cuba
Março 21, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Colômbia ———————————————- colombiano

Comores ———————————————— comoriano

Congo-Brazzaville ———————————— congolês

Congo-Kinshasa ————————————– congolês

Coreia do Norte ————————————— norte-coreano

Coreia do Sul ——————————————- sul-coreano

Córsega ————————————————– corso

Costa do Marfim ————————————— costa-marfinense

Costa Rica ———————————————— costa-riquenho

Croácia —————————————————– croata

Cuba ——————————————————- cubano

(continua)

José Gomes Ferreira – Viver Sempre Também Cansa
Março 20, 2018

 

Viver sempre também cansa

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinza, negro, quase verde…

Mas nunca tem a cor inesperada.

 

O mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

 

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

 

Tudo é igual, mecânico e exacto.

 

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida…

 

E obrigam-me a viver até à Morte!

 

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?

 

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.

 

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela.”

 

E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo…

 

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

António Botto – Outra
Março 20, 2018

 

Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo: – a luz do dia!

– Bendito seja o teu sorriso

 

Que desata a inspiração

 

Da minha fantasia!

Se fosses flor serias o perfume

Concentrado e divino que perturba

O sentir de quem nasce para amar!

 

– Se desejo o teu corpo é porque tenho

 

Dentro de mim

A sede e a vibração de te beijar!

Se fosses água – música da terra,

Serias água pura e sempre calma!

– Mas de tudo que possas ser na vida,

 

Só quero, meu amor, que sejas alma!

 

António Botto (Concavada, Abrantes, 1897 – Rio de Janeiro, 12-3-1959)
Poeta, autor de contos infantis, O Livro das Crianças, amigo de Fernando Pessoa.

Maria Alberta Menéres – Timidez
Março 18, 2018

 

O bicho-de-conta

Faz de conta, faz

Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo

Não é mau rapaz.

 

Se a gente lhe toca,

Logo se disfarça:

Veste-se de bola.

 

Por mais que se faça

Não se desenrola.

 

Lá dentro escondendo

Patinhas e rosto

É todo um segredo:

 

Se eu fosse menino

Comigo brincava

Sem medo sem medo.

O bicho-de-conta

Faz de conta, faz

Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo

Não é mau rapaz.

 

Se a gente lhe toca,

Logo se disfarça:

Veste-se de bola.

 

Por mais que se faça

Não se desenrola.

 

Lá dentro escondendo

Patinhas e rosto

É todo um segredo:

 

Se eu fosse menino

Comigo brincava

Sem medo sem medo.

 

Maria Alberta Menéres (Vila Nova de Gaia, 25/8/ 1930)
Professora, tradutora, jornalista, poetisa e escritora infanto-juvenil, mãe da cantora Eugénia Melo e Castro.

Matilde Rosa Araújo – Balada das Vinte Meninas Friorentas
Março 18, 2018

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 18/6/1921 – Lisboa, 6 /7/2010)
Contista, poetisa e novelista com prevalência na literatura infanto-juvenil, professora, licenciada em Filologia Românica.

Murilo Mendes – Manhã
Março 17, 2018

 

As estátuas sem mim não podem mover os braços

Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus

[maridos

 

Muitos versos sem mim não poderão existir.

 

É inútil deter as aparições da musa

É difícil não amar a vida

Mesmo explorado pelos outros homens

É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas

Sou poeta irrevogavelmente.

 

Murilo Mendes (Juiz de Fora, 13/5/1901 – Lisboa, 13/8/1975)
Expoente máximo da poesia modernista brasileira, foi dentista, telégrafo, auxiliar de guarda-livros, notário, inspector do Ensino Secundário, professor universitário, esposo de Maria da Saudade Cortesão.