Archive for Abril, 2018

Adriana Lisboa – A Função das Coisas
Abril 30, 2018

 

Nos objetos fabricados pelos tuaregue

com seus poucos recursos

para o uso cotidiano

bolsas

selas de camelo

tendas

seria de se supor alma seca

alinhavada pela funcionalidade

no entanto eles os fabricam

intrincados

coloridos

lindos

com seus poucos recursos

cunhando

do deserto

um carnaval

 

Adriana Lisboa (Rio de Janeiro, 1970)
Romancista, contista, autora de literatura infantil, cantora, flautista e professora Doutorada em Literatura Comparada, Mestre em Literatura Brasileira e graduada em música, detentora de vários prémios literários.

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Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Faroé; Filipinas; Finlândia; França; Gabão; Gâmbia; Gana; Georgia; Gibraltar
Abril 30, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Faroé —————————————————— faroense

Filipinas ————————————————– filipino

Finlândia ————————————————  finlandês, finês

França —————————————————   francês

Gabão —————————————————-  gabonês

Gâmbia ————————————————–  gambiano

Gana —————————————————— ganês

Geórgia ————————————————- georgiano

Gibraltar ———————————————- gibraltino

 

(continua)

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, S. Tomé e Príncipe – Francisco José Tenreiro – Ritmo para a Jóia daquela Roça
Abril 30, 2018

 

Dona Jóia dona

dona de lindo nome;

tem um piano alemão

desafinando de calor.

 

Dona Jóia dona

do nome de Sum Roberto

está chorando nos seus olhos

de outras terras saudades.

 

Dona Jóia dona

dona de tudo que é lindo:

do oiro cacaueiro

do café de frutos vermelhos

das brisas da nossa ilha.

 

Dona Jóia dona

dona de tudo que é triste:

meninos de barriga oca

chupando em peitos chatos;

negros de pésão grande

trabalhando pelos mato.

 

Ai! Dona Jóia dona,

dona de mim também –

Jesus, Maria, José

Credo! –

não me olhe assim-sim

que me pára coração.

 

Francisco José Tenreiro (São Tomé, 1921-1963)
Poeta, ensaísta, contista, colaborador de diversas publicações Integrou a Casa dos Estudantes do Império, co-fundador do Centro de Estudos Africanos, professor universitário, doutorado em Ciências Geográficas (FLUL) e em Ciências Sociais (Inglaterra,1961).

Gentil Valadares – Lengalenga
Abril 30, 2018

 

Se tens d’oiro cheia a tulha,

Bem como a adega, aliás,

Pelo buraco da agulha,

Tu, rico, não passarás.

 

Se andas com outros à bulha

(vizinho, adulto ou rapaz),

Pelo buraco da agulha,

Tu, bruto, não passarás.

 

Se vendes carvão por hulha

E em vez de uísque aguarrás,

Pelo buraco da agulha,

Tu, ladrão, não passarás.

 

Se no tempo da debulha

Enganas o capataz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, falso, não passarás.

 

Se quando a pombinha arrulha

Ternurinhas não te faz.

Pelo buraco da agulha,

Tu, cruel, não passarás.

 

Se o mar inquieto marulha

E escutá-lo não te apraz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, surdo, não passarás.

 

Se nada tens… nem faúlha…

Mas com Deus vives em paz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, pobre, tu passarás.

 

Gentil Valadares de Seixas (Chaves, 25/2/1916 – Alvor, 17/9/2006)
Poeta, colaborador em publicações, membro da Associação Portuguesa de Escritores.

Literatura Africana de Expressão Portuguesa, Moçambique – José Craveirinha –Ao Meu Belo Pai Ex-Emigrante
Abril 30, 2018

 

Pai:

As maternas palavras de signos

vivem e revivem no meu sangue

e pacientes esperam ainda a época de colheita

enquanto soltas já são as tuas sentimentais

sementes de emigrante português

espezinhadas no passo de marcha

das patrulhas de sovacos suando

as coronhas de pesadelo.

 

 

E na minha rude e grata

sinceridade não esqueço

meu antigo português puro

que me geraste no ventre de uma tombasana

eu mais um novo moçambicano

semiclaro para não ser igual a um branco qualquer

e seminegro para jamais renegar

um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

 

 

E agora

para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar

e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha

subconsciência dos porquês de Buster keaton

[sorumbático

achando que não valia a pena fazer cara alegre

e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa

Ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo

[branco

e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão

e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene

enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:

quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

 

 

Oh, Pai:

Juro que em mim ficaram laivos

do luso-arábico Algezur da tua infância

mas amar por amor só amo

e somente posso e devo amar

esta minha bela e única nação do Mundo

onde minha Mãe nasceu e me gerou

e contigo comungou a terra, meu Pai.

E onde ibéricas heranças de fados e broas

se africanizaram para a eternidade nas minhas veias

e teu sangue se moçambicanizou nos torrões

da sepultura de velho emigrante numa cama de

[hospital

colono tão pobre como desembarcaste em África

meu belo Pai ex-português.

 

 

Pai:

O Zé de cabelos crespos e aloirados

não sei como ou antes por tua culpa

o “Trinta-diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos

à Zamora nas balizas dos estádios descampados

avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim

mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas

embasbacado com as proezas do Circo

[Pagel

nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui

campeão de corridas no “xituto” Harley-Davidson

os fundilhos dos calções avermelhados nos montes

do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores

para salvar a rapariga Maureen O’Sulivan das

[mandíbulas

afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller

os bolsos cheios de tingolé da praia

as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã

do carro eléctrico e as mangas verdes com sal

sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti

e Sontinho para minha Mãe

todo maluco de medo das visões alucinantes

de Lon Chaney com muitas caras.

 

 

Pai:

Ainda me lembro bem do teu olhar

e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade

ou teus versos de improviso em loas à vida escuto

e também lágrimas na demência dos silêncios

em tuas pálpebras revejo nitidamente

eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos

dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura

na dimensão desmedida do meu amor por ti

meu belo algarvio bem moçambicano!

 

 

E choro-te

chorando-me mais agora que te conheço

a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois

dos carros na lenta procissão do nosso funeral

mas só Tu no caixão de funcionário aposentado

nos limites da vida

e na íris do meu olhar o teu lívido rosto

ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus

e na minha cabeça de mulatinho os últimos

afagos da tua mão trémula mas decidida sinto

naquele dia de visitas na enfermaria do hospital

[central.

 

 

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da

[guitarra

ou o arco da bondade deslizando no violino da

[tua aguda tristeza

e nas abafadas noites dos nossos índicos verões

tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero

e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix

todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan

[analfabeto

e de tanga na casa de madeira-e-zinco

da estrada do Zichacha onde eu nasci.

 

 

Pai:

Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem

mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios

e Tarzan agente disfarçado em África

e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face

e eu também é que mudámos.

E alinhavadas palavras como se fossem versos

bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol

no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção

para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços

agitados nas manhãs de bronze

chorando gotas de uma cacimba de solidão nas

[próprias

almas esguias hastes espetadas nas margens das

[húmidas

ancas sinuosas dos rios.

 

 

E nestes versos te escrevo, meu Pai

por enquanto escondidos teus póstumos projectos

mais belos no silêncio e mais fortes na espera

porque nascem e renascem no meu não cicatrizado

ronga-ibérico mas afro-puro coração.

E fica a tua prematura beleza realgarvia

quase revelada nesta carta elegia para ti

meu resgatado primeiro ex-português

número UM Craveirinha moçambicano!

 

José Craveirinha (Lourenço Marques, 28/5/1922 – Maputo, 6/2/2003)
O maior poeta de Moçambique,  galardoado com o Prémio Camões em 1991.

 

Sophia – Abril
Abril 30, 2018

 

Vinhas descendo ao longo das estradas,

Mais leve do que a dança

Como seguindo o sonho que balança

Através das ramagens inspiradas.

 

E o jardim tremeu,

Pálido de esperança.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética I

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)
Poetisa, contista, autora de literatura infantil e tradutora, a 1.ª mulher portuguesa a receber o prémio Camões (1999).

José Gomes Ferreira – Eléctrico XXVIII
Abril 25, 2018

 

Poete, não grites.

Não arranques os homens do chão das próprias sombras.

estes homens – vê – para quem as palavras são limites e não grades por onde fogem pombas.

 

FERREIRA, José Gomes, Poeta Militante, 1.º volume

 

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900 – Lisboa, 1985)
Poeta, jornalista – colaborador da Presença e Seara Nova -, membro do Novo Cancioneiro, compositor musical, tradutor de filmes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, licenciado em Direito, cônsul na Noruega, pai do arquitecto Raul H. Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Miguel Torga – “25 de Abril de 1978”
Abril 25, 2018

 

“Castelo de Vide, 25 de Abril de 1978 – Um Vinte e Cinco de Abril longe dele, a ver um retratista pintar e a ouvir o vento. Um vento pertinaz e salutar, que desde manhãzinha varre quanta retórica os órgãos da comunicação social fazem chegar aos meus ouvidos, já cansados desta nossa revolução feita de palavras feitas.”

 

TORGA, Miguel, Diário

 

Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX,  galardoado com o Prémio Camões em 1989, médico.

Julieta Monginho – [Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada], continuação
Abril 25, 2018

 

“Os homens recolhiam, a família jantava e depois era noite, ou seja, a manhã estrelada.

As mulheres levavam as cadeiras até à porta da frente, punham-se a apanhar o fresco. E reconheciam as vizinhas sentadas, até ao fundo da rua, assim como toda a gente que passava e se metia com a gaiata, porque a luz de tanta estrela junta era muito mais meiga que a do sol. Podiam olhar olhar olhar, e sonhar, sem que os olhos protestassem.

Ali estão as Três Marias, aponta a mãe. Oríon, corrige a avó, que ainda não tinha entrado na história mas esteve sempre escondidinha, num lugar invisível.

Toca para a cama, manda a tia Chica, sem mandar coisa alguma pois só o sono é capaz de vencer a genica da gaiata. Há-de despertar com o aroma do leite a ferver, sair da cama, atravessar em corrida a Casa enorme para ir ter com a avó, que amassa o pão, moldando duas papais, só para a neta.”

 O título é retirado de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro”

JL, “Memórias de Outros Verões”, 17 a 30 de agosto de 2016

 

Julieta Monginho (Lisboa, 1958)
Escritora e advogada.

Salette Tavares – A agulha, a linha e o dedal
Abril 22, 2018

 

Dedal foi a primeira jóia que me deram

e eu apreciei.

Deram-me brincos

deram-me fios

deram-me pulseiras e anéis

mas foi o dedal que eu amei.

 

Um dedo com um dedal

é um personagem teatral

com enfeites na cabeça.

Além disso, dedal

é uma palavra em festa

é uma guloseima na boca

é um sino que toca sem badalo.

Experimentem dizer: dedal!

dedal! dedal!           e vejam.

 

Companheira manifesta do dedal

é a agulha

outra palavra gesta

com sílaba escura seguida pela molhada.

Agulha é uma palavra comprida

esguia e dura              e lançada

que se demora no u              à espera

do empurrão do dedal.

Agulha é uma palavra esperta

aguda

para a escrita rápida e húmida,

é um traço

de metal.

Agú ú ú ú ú ………. é uma demora no    u

manejada

pela mão

seguida pela linha que se prossegue

como um vestido longo.

A agulha é uma varinha

do condão

com que uma fadinha escreve

o rolinho sólido

da linha.

 

Linha é        a terceira palavra da nossa lição.

Li i i i i  inha é um risco fluido com um nó

na ponta.

Preta branca azul de qualquer cor

a linha é sempre um brando fio

que desenha.          Passa

dobra          estica      encolhe

retesa ou lassa

dialéctica sucessiva

entre o direito e o avesso

do tecido.

É ela que fabrica a exactidão real

do prometido.

 

Mas as imagens destas coisas concretas

mais do que de hoje

são experiências do passado

do meu pequeno pasado

e do passado ancestral          das palavras.

 

A mim ensinaram-me a bordar há muitos anos

afilando-me os dedos

alongando-me as unhas

e metendo-me no médio

o pequeno dedal.

Misteriosamente transformou-se a mão

num lago

onde vogava entre falanges delicadas

um minúsculo barco          comprido

de metal

polido.

Era um ínfimo Brancusi

ou um estilete de aço

de Gabo

com o rabo

amarelo.

Luzidia e certa

eu via a agulha

e a agulha era

perfeita.      Parecia

um comenta      porque tinha

cauda estrelada         a linha.

 

Para cá e para lá

a agulha passava

e, atrás de si,

longamente arrastava

esta cauda.

No pano prendido pela outra mão

formava-se pouco a pouco uma ilusão.

era o bordado         que surgia.

 

A agulha seguia as suas rotas firmemente

lançada pelo dedal.

Das pontas dos dedos ela ia

através do pano

para um levantar vertical

até a linha esticar.

Ritmicamente repetido o gesto

mais do que um barco

a agulha era         de ligeira

um peixe a navegar pelo bordado.

 

Ó quem me dera outra vez

o meu teatro miniatura

com a agulha entre os dedos

com o dedal da ternura

e a linha a passajar           o tempo.

 

Salette Tavares (Lourenço Marques, Moçambique, 1922 – Lisboa, 1994)
Poetisa, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas e dedicou-se aos estudos de: Linguística, Estética, e Teoria da Arte, integrou o grupo da poesia experimental e visual em Portugal.