Archive for Maio, 2018

José Saramago – [Não me Peçam Razões…]
Maio 28, 2018

Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos.

 

Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

 

Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.

 

SARAMAGO, José, Os Poemas Possíveis

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010)
Romancista, contista, poeta, dramaturgo, argumentista, jornalista, galardoado com o Prémio Camões em 1995  e com  Prémio Nobel de 1998.

Anúncios

Eça de Queirós – Carta a um Redactor do Jornal do Comércio
Maio 28, 2018

 

“Senhor redactor do Jornal do Comércio: no seu número de terça-feira 2, dando você a notícia da criação dum clube na Rua da Prata, vejo com admiração o meu nome citado entre os dos fundadores.

Seria para mim extremamente honroso ser do centro duma propaganda democrática, filosófica, doutrinal, elevada e séria – sobretudo em camaradagem com o superior espírito do meu amigo Antero de Quental.

Mas a verdade é que nunca fundei nem na Rua da Prata, nem em alguma outra rua, nem clube republicano, nem centro político.

Rogo a você tome nota desta negativa enérgica, que eu faço todavia sem pavor constitucional, e unicamente para estabelecer a verdade: pelo mesmo motivo, se você noticiasse que eu ia fundar uma camisaria, protestaria igualmente, porque não é verdade.

Aceite os protestos da minha consideração,

De V. etc.

Eça de Queirós”

 

QUEIRÓS, Eça, Notas Contemporâneas, Círculo de Leitores, Geração de 70, 1988

 

Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/8/1900)
Diplomata e escritor, considerado o melhor escritor realista português do séc. XIX.

Padre António Vieira – Ao Sereníssimo Rei de Portugal
Maio 28, 2018

 

A Índia envia marfim, incenso, âmbar, canela e pérola:

Daí se enviam diamantes; também tu, piropo vermelho.

A África, embora negra, os presentes brancos do elefante;

E, vencida, fornece os grandes rebanhos de escravos.

Todos os méis muitíssimo doces escorrem das canas.

Quando a terra brasileira os leva a seu Beto.

Daqui, de um Orbe duplo, crescem para ti mais fecundamente

O louvor e as riquezas, para os lusos generoso rei do Tejo.

O que quer que sobre aos teus, repartes entre todos os povos:

Entregues ao mesmo tempo pela cidade e portos europeus.

Ainda que isso seja ambicionado por povos longínquos;

A um mais do que a todos inveja o Mundo amante.

Certamente porque a Vila Austral te dê mais todos os anos

Do que os demais reinos com territórios subjugados.

Por ti é ela bastante conhecida; e conhecido o Feitor; a quem

Todos os povos conheceram e elevam acima dos astros.

A Vilazinha, próxima ao monte baiano, dá a ti mais

Do que a preciosa Índia com seus presentes.

Mais para ti, mais para o Orbe, Vieira prodigaliza com um só

Livro; e o Tejo mais que o Ganges e o Oceano.

Contende-vos, escritores lusíadas; contende-vos: para sempre

Mais encómios ao Reino não poderão crescer.

 

VIEIRA, Padre António, Obra Completa, Tomo IV, Volume IV, “Poesia e Teatro”, Círculo de Leitores, 2014

 

Padre António Vieira (Lisboa, 6/2/1608 – Bahia, 18/7/1697)
(“Paiaçu”)
Religioso, Prosador e pensador, orador do séc. XVII.

Eduíno de Jesus – [Da Flor do Arco-Íris]
Maio 28, 2018

 

da flor do arco-
-íris as pétalas
caem no mar ao longe abertas
que um delíquio espasma

e o marítimo aceno
da asa de um barco
instila na alma
como um veneno

o ingénuo sonho

 

Eduíno de Jesus (Ponta Delgada, Açores, 18/1/1928)
Ensaísta, dramaturgo, poeta, professor do Ensino Secundário e, posteriormente, docente universitário.

Miguel Real – O Gosto e as Influências da Escrita
Maio 28, 2018

 

“(…) penso que os professores tiveram uma grande influência, sobretudo o professor poeta açoriano Eduíno de Jesus, na Escola Preparatória Nuno Gonçalves. Elogiava-me as redações e aconselhava-ma livros na biblioteca. De tal modo me estimulava que me parecia com 11/12 anos, que a única coisa boa que eu fazia na vida era ler e escrever. Tudo o resto me atrapalhava e me enfastiava. (…)

Tudo o que li me influenciou, ora pela novidade das ideias, ora pelo estilo, ora pelo vocabulário, ora pelo enredo, claro ou enigmático. (…)

Todas as semanas mudo se autores favoritos. Mas três são permanentes – Padre António Vieira, Eça de Queirós e José Saramago. Três faces de Portugal: a mística, de quem amplia o valor do país; a satírica,  de quem o critica e minimiza; por fim, a de quem o desconstrói, desconstruindo a personalidade humana universal da personagem. (…)

Eu sempre quis ser professor, não ensaísta, não escritor. Professor de Filosofia do ensino secundário foi o meu modo essencial de vida, para o exercício do qual me levantava com alegria todas as manhãs. Tudo o resto foi (é) belo mas acidental. (…)”

 

In JL, 14 a 27 de março de 2018

 

Miguel Real (Lisboa, 01/03/1953)
Pseudónimo de Luís Martins
Ensaísta, romancista, dramaturgo, crítico literário, conferencista, professor de Filosfia, colaborador do JL, licenciado em Filosofia, mestre em Estudos Portugueses, especialista em Cultura Portuguesa.

Afonso Lopes Vieira – Saudades até… doutras Saudades
Maio 27, 2018

 

Sobre o mar infinito debruçando

Seu cismático olhar de nostalgia,

Vê Portugal, ao fim de cada dia,

As estrelas no céu irem tombando.

 

Vão no Ocidente as luzes apagando

A flama bela que resplandecia:

E o olhar português, que o céu enchia,

Encheu-se de saudades, contemplando.

 

Dos meus olhos as fundas claridades,

Oh meu amor, vão para ti mais belas

Desta alma ocidental, flor de saudades.

 

Mas saudades de ti? De mim? De quem?

As saudades da altura das estrelas,

As saudades sem fim do mais além.

 

Afonso Lopes Vieira (Leiria, 1878 –Lisboa,1946)
Poeta, representante do Neogarretismo, ligado à Renascença Portuguesa, licenciado em Direito.

Valter Hugo Mãe – [Brincávamos a Cair nos Braços um do Outro]
Maio 27, 2018

 

brincávamos a cair nos

braços um do outro, como faziam

as actrizes nos filmes com o marlon

brando, e depois suspirávamos e ríamos

sem saber que habituávamos o coração à

dor.

queríamos o amor um pelo outro

sem hesitações, como se a desgraça nos

servisse bem e, a ver filmes, achávamos que

o peito era todo em movimento e não

sabíamos que a vida podia parar um

dia. eu ainda te disse que me doíam os

braços e que, mesmo sendo o rapaz, o

cansaço chegava e instalava-se no meu

poço de medo. tu rias e caías uma e outra

vez à espera de acreditares apenas no que

fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,

quando percebíamos que o mundo era

feito de distância e tanto tempo vazio, tu

ficavas muito feminina e abandonada e eu

sofria mais ainda com isso. estavas tão

diferente de mim como se já tivesses

partido e eu fosse apenas um local esquecido

sem significado maior no teu caminho. tu

dizias que se morrêssemos juntos

entraríamos juntos no paraíso e querias

culpar-me por ser triste de outro modo, um

modo mais perene, lento, covarde. Eu

amava-te e julgava bem que amar era

afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu

nos teus braços, fazias um

bigode no teu rosto como se fosses o

marlon brando. eu, que te descobria como se

descobrem fantasias no inferno, não

queria ser beijado pelo marlon brando e

entrava numa combustão modesta que, às

batidas do meu coração, iluminava o meu

rosto como lâmpada falhando

 

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado,

não

brinques assim, vais partir uma perna, vais

partir a cabeça, vais partir o

coração. e estava certa, foi tudo verdade

 

MÃE, Valter Hugo, Contabilidade

 

Valter Hugo Mãe (Saurimo, Angola, 25/9/1971)
Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, editor, artista plástico, cantor, DJ português, licenciado em Direito.

Adolfo Portela – A açucena
Maio 27, 2018

 

Sou de neve e sou de prata

Baptizei-me em Nazaré;

Fui bordão dum carpinteiro

Que se chamava José.

 

São José levou-me um dia

Do canteiro onde nasci;

Corri toda a Galileia,

Terras-Santas percorri.

 

A prata das minhas folhas

Veio toda, por meu bem,

Das suas barbas nevadas

E dos seus olhos também.

 

Vai o povo com seu jeito,

Que é de lenda e que é de fé,

Ampara as crenças velhinhas

Ao bordão de S. José.

 

S. José deu-me a virtude,

S. José deu-me o condão

De amparar quem é velhinho

Às folhas do meu bordão.

 

In O Livro de Leitura da 3.ª Classe

 

Adolfo Rodrigues da Costa Portela (Águeda, 16/08/1866 – Fundão, 17/11/ 1923)
Poeta, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, tradutor, jornalista, músico, compositor, advogado, tesoureiro e administrador de concelhos.

Gentílicos ou Pátrios de Estados e Territórios – Granada; Grécia; Gronelândia; Guadalupe; Guam; Guatemala; Guiana; Guiné; Guiné Equatorial
Maio 27, 2018

 

Gentílicos ou pátrios – nomes que indicam: nacionalidade, origem ou lugar de nascimento, residência de alguém ou proveniência de alguma coisa.

Eis alguns, de estados e territórios:

Granada ————————————————– granadino

Grécia —————————————————— grego, heleno, helénico

Gronelândia ——————————————– gronolandês

Guadalupe ———————————————– guadalupino

Guam ——————————————————- guamês

Guatemala ———————————————- guatemalense, guatemalteco

Guiana ————————————————— guianês

Guiné —————————————————– guineense, guinéu

Guiné Equatorial ——————————— equato-guineense

(continua)

Eugénio Lisboa – [Alma Gentil e Minha, assim Partiste]
Maio 26, 2018

 

Alma gentil e minha, assim partiste,

era cedo no dia e já poente.

Ficas onde ficaste, levemente,

e em mim fica a saudade que persiste.

 

Eugénio Lisboa (Lourenço Marques, 25/5/1930)
Ensaísta e crítico, licenciado em Engenharia Electrotécnica, ligado profissionalmente à cultura e à literatura, usou os pseudónimos: Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.